

	{"id":9778,"date":"2022-09-23T21:46:19","date_gmt":"2022-09-23T21:46:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=9778"},"modified":"2022-09-23T23:43:30","modified_gmt":"2022-09-23T23:43:30","slug":"texto-3-o-governo-burgues-de-kerensky-e-a-esquerda-russa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2022\/09\/23\/texto-3-o-governo-burgues-de-kerensky-e-a-esquerda-russa\/","title":{"rendered":"TEXTO 3: O governo burgu\u00eas de Kerensky e a esquerda russa"},"content":{"rendered":"<p><strong>PARTE I: ST\u00c1LIN E KAMENEV APOIAM O GOVERNO PROVIS\u00d3RIO<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Santiago, Candidato ao Senado pelo Polo Socialista Revolucion\u00e1rio<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro\u00a0de 1917 na R\u00fassia,\u00a0 iniciada com a greve das oper\u00e1rias das f\u00e1bricas de Vyborg, no dia Internacional da Mulher (23 de fevereiro)<a href=\"https:\/\/outlook.live.com\/mail\/0\/inbox\/id\/AQMkADAwATZiZmYAZC05MzI3LWQyZGQALTAwAi0wMAoARgAAA03n5gl8K9ZBltzpUc%2B2pxcHABagbGeyd39KuDy1kDpJoIYAAAIBDAAAABagbGeyd39KuDy1kDpJoIYABjWzDHgAAAA%3D#x__edn1\">*<\/a>, havia triunfado. Depois de cinco dias (23 a 27 de fevereiro) de combates revolucion\u00e1rios nas ruas de Petrogrado e Moscou, com a subleva\u00e7\u00e3o dos regimentos de soldados, a revolu\u00e7\u00e3o havia colocado abaixo uma dinastia autocr\u00e1tica que governava a R\u00fassia h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos, a dinastia dos Romanov.<\/p>\n<p><strong>A queda da Monarquia Tzarista e o governo provis\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p>Imediatamente ap\u00f3s as primeiras horas do triunfo, os sovietes, rec\u00e9m instalados, detinham o poder. Por\u00e9m, devido \u00e0 trai\u00e7\u00e3o dos mencheviques e socialistas revolucion\u00e1rios (maioria nos sovietes), o poder acabou passando para as m\u00e3os da burguesia liberal. Trotsky dizia que os socialistas moderados, que estavam \u00e0 frente dos sovietes, procuravam o tempo todo um \u201c\u00b4patr\u00e3o\u201d, a burguesia liberal, para entregar o poder.(i)<\/p>\n<p>Surgia, assim, com o apoio dos socialistas moderados, o \u201cgoverno provis\u00f3rio\u201d encabe\u00e7ado pela burguesia, por meio de Rodzianko, um rico propriet\u00e1rio de terras e membro do Partido Outubrista, e Miliukov, l\u00edder do Partido Cadete, da burguesia liberal. Al\u00e9m deles, o governo tamb\u00e9m era composto por Kerensky, advogado e l\u00edder da fra\u00e7\u00e3o dos Trudoviks (Trabalhistas), um socialista moderado independente que depois aderiu ao Partido Socialista Revolucion\u00e1rio (ii), desempenhando o cargo de ministro da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>St\u00e1lin e Kamenev apoiam o governo Provis\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p>Antes da chegada de L\u00eanin a Petrogrado, em 3 de abril, o Partido Bolchevique passou todo o m\u00eas de mar\u00e7o em desordem pol\u00edtica e com tergiversa\u00e7\u00f5es, aplicando uma pol\u00edtica oportunista de apoio ao \u201cgoverno provis\u00f3rio\u201d. O \u201cmanifesto\u201d do Comit\u00ea Central dos bolcheviques, lan\u00e7ado logo ap\u00f3s a vit\u00f3ria revolucion\u00e1ria das massas, conclamava os oper\u00e1rios das f\u00e1bricas e das usinas, assim como as tropas sublevadas, a elegerem seus representantes ao \u201cgoverno revolucion\u00e1rio provis\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<p>Com a chegada de Kamenev e St\u00e1lin em Petrogrado, vindos da deporta\u00e7\u00e3o na Sib\u00e9ria, em\u00a0meados de mar\u00e7o, a pol\u00edtica oficial do partido deu um giro ainda mais \u00e0 direita. Imediatamente, os dois foram al\u00e7ados a membros do Comit\u00ea Executivo dos Sovietes, dominado pelos conciliadores (mencheviques e socialistas-revolucion\u00e1rios). Assumiram a dire\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Pravda\u00a0<\/em>a partir de 15 de mar\u00e7o, afastando a antiga reda\u00e7\u00e3o. No artigo em forma de programa da nova reda\u00e7\u00e3o do jornal, era proclamado que os bolcheviques apoiariam resolutamente o Governo Provis\u00f3rio \u201cna medida em que esse governo combatesse a rea\u00e7\u00e3o e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o\u201d(iii).<\/p>\n<p>Mais grave ainda foi a posi\u00e7\u00e3o dos dois dirigentes no\u00a0<em>Pravda<\/em>\u00a0em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra interimperialista, que rompia categoricamente com a posi\u00e7\u00e3o do partido e de L\u00eanin. Eles escreveram que \u201cn\u00e3o fazemos nossa a palavra de ordem inconsistente de \u201cabaixo \u00e0 guerra!\u201d. Tratava-se de uma trai\u00e7\u00e3o completa \u00e0 posi\u00e7\u00e3o internacionalista do partido e de L\u00eanin, contr\u00e1ria \u00e0 guerra imperialista e defendendo a transforma\u00e7\u00e3o da guerra imperialista em guerra civil revolucion\u00e1ria, com base no derrotismo da pr\u00f3pria R\u00fassia na guerra.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>As Teses de Abril de L\u00eanin: nenhum apoio ao governo provis\u00f3rio!<\/strong><\/p>\n<p>Ao chegar na Esta\u00e7\u00e3o Finl\u00e2ndia em 3 de abril, L\u00eanin foi recebido com honras pelo Comit\u00ea Bolchevique de Petrogrado e pelo Comit\u00ea Executivo do Soviete, na figura do menchevique Cheidze. Ap\u00f3s ouvir a fala do dirigente menchevique, que falava em \u201cuni\u00e3o\u201d em torno do governo provis\u00f3rio, L\u00eanin se dirigiu aos oper\u00e1rios e soldados: \u201cQueridos camaradas, soldados, marinheiros e oper\u00e1rios, sinto-me feliz por saudar em v\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa vitoriosa, por saudar-vos como a vanguarda do ex\u00e9rcito prolet\u00e1rio mundial&#8230;&#8230;A Revolu\u00e7\u00e3o Russa, por v\u00f3s realizada, iniciou uma nova \u00e9poca. Viva a Revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial!\u201d(iv).<\/p>\n<p>Ao deixar a Esta\u00e7\u00e3o Finl\u00e2ndia em um desfile de carros militares, foi direto para o Pal\u00e1cio Ksheinskaia, onde se instalara o quartel general dos bolcheviques. Em seu discurso ao partido, mais uma vez defendeu o programa da revolu\u00e7\u00e3o e a tomada do poder pelos sovietes. Trotsky resumiu assim o discurso de L\u00eanin: \u201cN\u00e3o precisamos da rep\u00fablica parlamentar, n\u00e3o precisamos da democracia burguesa, n\u00e3o precisamos de governo algum, exceto os sovietes de deputados oper\u00e1rios, soldados e de oper\u00e1rios agr\u00edcolas!\u201d(v).<\/p>\n<p>Eram as famosas \u201cTeses de Abril\u201d de L\u00eanin, onde este dizia categoricamente: \u201c<em>Nenhum apoio ao Governo Provis\u00f3rio!\u201d<\/em>, explicando a completa falsidade de todas as promessas deste governo, sobretudo daquela referente \u00e0 ren\u00fancia \u00e0s anexa\u00e7\u00f5es. Desmascaramento, em vez da \u201cexig\u00eancia\u201d inadmiss\u00edvel e semeadora de ilus\u00f5es de que este governo, governo de capitalistas, deixe de ser imperialista.\u201d(vi). Al\u00e9m disso, L\u00eanin defendeu a imediata passagem de todo poder aos sovietes de oper\u00e1rios e soldados. Assim, come\u00e7ava a luta de L\u00eanin para mudar o curso oportunista no qual se encontrava o partido sob a dire\u00e7\u00e3o de St\u00e1lin e Kamenev.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo n\u00famero trataremos da segunda fase do governo provis\u00f3rio burgu\u00eas, com a crise aberta a partir das Jornadas de Abril, e a instala\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>primeira Frente popular da hist\u00f3ria<\/em>.<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>\uf02a\u00a0. O calend\u00e1rio russo seguia o calend\u00e1rio juliano e estava atrasado treze dias em rela\u00e7\u00e3o ao calend\u00e1rio Ocidental, onde o Dia Internacional da Mulher \u00e9 celebrado em 8 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>[i]\u00a0. Leon Trotsky.\u00a0<em>A Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>, volume 1, A Queda do Tzarismo, 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o, paz e Terra, 1978, p\u00e1g. 156.<\/p>\n<p>[ii]\u00a0.\u00a0 Leon Trotsky, idem, p\u00e1g. 203.<\/p>\n<p>[iii]\u00a0.\u00a0 Leon Trotsky, idem, p\u00e1g. 251.<\/p>\n<p>[iv]\u00a0.\u00a0 Leon Trotsky, idem, p\u00e1g. 257.<\/p>\n<p>[v]\u00a0.\u00a0 Leon Trotsky, idem, p\u00e1g. 258.<\/p>\n<p>[vi]\u00a0.\u00a0 V.I. Lenine.\u00a0<em>Obras Escolhidas<\/em>, volume 2, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Editora Alfa-Omega, 1988, p\u00e1g.14.<\/p>\n<p>Confira os textos de Lenin e Trotsky<\/p>\n<p><strong>Teses de Abril:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1917\/04\/04_teses.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1917\/04\/04_teses.htm<\/a><\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa:<\/strong><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1930\/historia\/\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1930\/historia\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PARTE II: R\u00fassia, Abril de 1917: Primeiro Governo de Frente-Popular da Hist\u00f3ria e sua derrubada pelos bolcheviques<\/strong><\/p>\n<p>Por: Jo\u00e3o Santiago<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>As Jornadas de Abril de 1917<\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas dias ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas do 1\u00ba de maio (18 de abril no calend\u00e1rio russo) a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria na R\u00fassia deu um novo salto e grandes mobiliza\u00e7\u00f5es armadas foram protagonizadas pelos soldados cansados da guerra, arrastando consigo os bairros oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>O piv\u00f4 da crise foi o ministro do Exterior, Miliukov, l\u00edder do Partido Cadete, de extrema-direita. No dia em que os Estados Unidos entraram na guerra fez uma declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica que a R\u00fassia faria anexa\u00e7\u00f5es de Constantinopla, da Arm\u00eania, da P\u00e9rsia setentrional e desmembraria a \u00c1ustria e a Turquia. Ap\u00f3s o protesto do Soviet teve que fazer uma nova Declara\u00e7\u00e3o em 27 de mar\u00e7o voltando atr\u00e1s em suas propostas de anexa\u00e7\u00e3o, mas deixando nas entrelinhas o compromisso da R\u00fassia com os aliados na guerra imperialista. Mesmo assim, os Aliados viam a declara\u00e7\u00e3o como uma concess\u00e3o ao Soviet e pressionaram o governo provis\u00f3rio.<\/p>\n<p>Preocupados com o seu desgaste perante as massas, os mencheviques exigiram que o governo enviasse uma nota aos governos da Entente com o mesmo conte\u00fado da Declara\u00e7\u00e3o anterior, e no dia 1\u00ba de maio, Miliukov enviou a nota por tel\u00e9grafo aos governos aliados, e publicada em todos os jornais da R\u00fassia no dia seguinte. A nota dizia que os vencedores \u201cencontrariam um meio de conseguir as garantias e as san\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para impedir, no futuro, novos conflitos sangrentos\u201d. Trotsky havia dito que na linguagem fraudulenta da diplomacia \u201cgarantias\u201d e \u201csan\u00e7\u00f5es\u201d n\u00e3o significavam outra coisa sen\u00e3o anexa\u00e7\u00f5es e indeniza\u00e7\u00f5es<a href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/1\/?ui=2&amp;ik=96699149f9&amp;view=lg&amp;permmsgid=msg-a%3Ar-4190849914569711794&amp;ser=1#m_7220219853012510922__edn1\"><sup>[i]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Enquanto o governo provis\u00f3rio burgu\u00eas e os conciliadores do Soviet se digladiavam na \u201csuperestrutura\u201d pol\u00edtica, cerca de 30 mil soldados tomavam as ruas de armas na m\u00e3o e com cartazes dizendo \u201cAbaixo Miliukov\u201d. A agita\u00e7\u00e3o ganhou os bairros oper\u00e1rios e o trabalho foi paralisado; os trabalhadores desceram \u00e0s ruas acompanhando os regimentos. A extrema-direita, liderada por Miliukov e os cadetes tamb\u00e9m chamou manifesta\u00e7\u00f5es de rua em apoio a Miliukov e ao governo provis\u00f3rio. Haviam deixado o general Kornilov de sobreaviso para esmagar a mobiliza\u00e7\u00e3o de soldados e oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Entretanto, o plano dos cadetes e de Kornilov havia malogrado. Pressionado pela mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas, os mencheviques, imprensados pelo duplo poder, deram ordens expressas para que os regimentos s\u00f3 sa\u00edssem das casernas com sua autoriza\u00e7\u00e3o e pediram aos soldados que n\u00e3o se mobilizassem nos pr\u00f3ximos dias. Os bolcheviques pressionaram o Soviet a votar uma resolu\u00e7\u00e3o dando Todo poder ao Soviet, a fim de se encerrar o duplo poder e esmagar o governo provis\u00f3rio burgu\u00eas, mas foram derrotados na vota\u00e7\u00e3o. Assim, se encerraram as jornadas de abril.<\/p>\n<p><strong>Surge o primeiro governo de frente-popular: Kerenski torna-se ministro da Guerra<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo com os fortes protestos de rua, o governo provis\u00f3rio n\u00e3o caiu. Isso gra\u00e7as aos conciliadores mencheviques e socialistas revolucion\u00e1rios que sequer exigiram a sa\u00edda de Miliukov. Entretanto, o governo saiu mortalmente ferido, sem condi\u00e7\u00f5es de governar como antes. O pr\u00f3prio Miliukov viu-se obrigado a pedir demiss\u00e3o no dia 2 de maio. Os l\u00edderes dos partidos da burguesia pediram ajuda aos partidos conciliadores do Soviet para que entrassem no governo atrav\u00e9s de uma coliga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Trotsky, da crise provocada com as jornadas de abril, haveria tr\u00eas sa\u00eddas: 1\u00aa) a volta de todo o poder \u00e0 burguesia, e isso s\u00f3 seria poss\u00edvel atrav\u00e9s de uma guerra civil; Miliukov tentou, mas fracassou; 2\u00aa) a entrega de todo o poder aos Sovietes, sem precisar da guerra civil, bastava levantar os bra\u00e7os no soviet e querer; mas os conciliadores mencheviques \u201cn\u00e3o queriam querer\u201d. Com as duas sa\u00eddas fechadas, tanto na linha burguesa quanto na prolet\u00e1ria, restaria uma terceira sa\u00edda, \u201ca semi-sa\u00edda, confusa, h\u00edbrida, covarde, das acomoda\u00e7\u00f5es. Aquilo que se chama coliga\u00e7\u00e3o\u201d, nas palavras de Trotsky.<\/p>\n<p>Esse debate ganhava as ruas e a superestrutura pol\u00edtica. A Duma municipal de Moscou votou uma resolu\u00e7\u00e3o a favor da Coliga\u00e7\u00e3o. Em 26 de abril, o governo provis\u00f3rio lan\u00e7ou um manifesto especial chamando \u201cas for\u00e7as criadoras ativas do pa\u00eds\u201d que ainda n\u00e3o haviam participado dos trabalhos do Estado a virem se associar-se com o governo. Os contingentes militares de Petrogrado pronunciavam-se a favor do governo de coliga\u00e7\u00e3o; tamb\u00e9m as prov\u00edncias votavam esmagadoramente pela coliga\u00e7\u00e3o; o Ex\u00e9rcito declarava-se a favor da coliga\u00e7\u00e3o. Apenas os soviets de Moscou, Tiflis, de Odessa, de Ekaterinburg, de Nizhni-Novgorod, de Tver e alguns outros foram contr\u00e1rios \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos socialistas no Governo.<\/p>\n<p>Assim, em 1\u00ba de maio, do calend\u00e1rio russo, O Comit\u00ea Executivo do Soviet decidiu por maioria de 41 votos contra 18 participar do governo de Coliga\u00e7\u00e3o. Apenas os bolcheviques e um pequeno grupo de mencheviques internacionalistas votaram contra. Um m\u00eas mais tarde, no 1\u00ba congresso dos Soviets, a coliga\u00e7\u00e3o foi aprovada por uma maioria de 543 votos contra 26 e 52 absten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Formava-se, assim, o primeiro governo de frente-popular da hist\u00f3ria, isto \u00e9, um governo onde os partidos da esquerda socialista entram em um governo da burguesia, ocupando minist\u00e9rios chaves. De 15 minist\u00e9rios, os socialistas conseguiram 5, tendo Kerenski passado a ser o Ministro da Guerra e da Marinha; Tseretelli, o l\u00edder menchevique, ocupou o Minist\u00e9rio dos Correios e Tel\u00e9grafos, Skobelev, ministro do trabalho, Chernov, ministro da Agricultura.<\/p>\n<p>A entrada dos socialistas conciliadores no governo, longe de resolver a crise revolucion\u00e1ria na R\u00fassia, jogou mais fogo na gasolina. A situa\u00e7\u00e3o no front de guerra se tornava insustent\u00e1vel e a pol\u00edtica do governo provis\u00f3rio e de Kerensky era continuar enviando soldados ao front; os oper\u00e1rios e oper\u00e1rias das f\u00e1bricas faziam greves contra os lock-out dos patr\u00f5es e o fechamento das f\u00e1bricas. Faltavam produtos essenciais para a sobreviv\u00eancia do povo, e o governo continuava pagando a d\u00edvida p\u00fablica da R\u00fassia, que equivalia a quase 60 bilh\u00f5es de rublos \u2013 s\u00f3 a guerra j\u00e1 consumira 40 bilh\u00f5es de rublos \u2013 e na falta de dinheiro para continuar bancando a guerra e o pa\u00eds, o governo provis\u00f3rio apela \u00e0s pot\u00eancias aliadas por um \u201cEmpr\u00e9stimo da Liberdade\u201d<a href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/1\/?ui=2&amp;ik=96699149f9&amp;view=lg&amp;permmsgid=msg-a%3Ar-4190849914569711794&amp;ser=1#m_7220219853012510922__edn2\"><sup>[ii]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O descontentamento com a situa\u00e7\u00e3o levava os regimentos e as f\u00e1bricas oper\u00e1rias a se molilizarem, e a manifesta\u00e7\u00e3o do dia 18 de junho, onde as massas sa\u00edram \u00e0s ruas com as consignas de\u00a0<em>\u201cFora os dez ministros capitalistas\u201d<\/em>\u00a0e\u00a0<em>\u201cTodo poder aos soviets\u201d<\/em>, fora um pren\u00fancio do que aconteceria no in\u00edcio de julho. Foi um recado aos mencheviques e socialistas revolucion\u00e1rios que insistiam no governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes, enquanto as massas pediam a sa\u00edda da burguesia do governo. O crescimento dos bolcheviques nos sindicatos e nos soviets de Petrogrado era um reflexo desse descontentamento das massas.<\/p>\n<p><strong>As Jornadas de Julho: Kerensky torna-se ministro-presidente<\/strong><\/p>\n<p>Nos dias 3 e 4 de julho, novamente os soldados dos regimentos de metralhadores, junto com os marinheiros de Kronstadt e oper\u00e1rios e oper\u00e1rias das f\u00e1bricas de Putilov sa\u00edram \u00e0s ruas de Petrogrado para exigir que os Soviets tomassem o poder e colocassem para fora os dez ministros capitalistas. O endere\u00e7o visado pelos manifestantes foi o Pal\u00e1cio de T\u00e1uride, onde se encontrava o Comit\u00ea Executivo dos Soviets, dirigido majoritariamente pelos mencheviques e socialistas-revolucion\u00e1rios. O fato que precipitou a entrada em cena das massas foi a crise pol\u00edtica do governo provis\u00f3rio, com a demiss\u00e3o de quatro ministros cadetes, que explodiram a coliga\u00e7\u00e3o formada em maio, com a desculpa dos compromissos assumidos pelos conciliadores com a Ucr\u00e2nia. Para Trotsky, na verdade, \u201ca verdadeira causa desta ruptura residia no fato de que os conciliadores n\u00e3o conseguiam refrear as massas\u201d.<\/p>\n<p>As \u201cJornadas de Julho\u201d, como ficou conhecida a ofensiva das massas, levou para as ruas cerca da 30 mil oper\u00e1rios, que marcharam das 11 da noite \u00e0s quatro da manh\u00e3 para a frente do Pal\u00e1cio de Ta\u00faride, para se juntar aos regimento de metralhadores e soldados armados, assim como aos marinheiros. Cada coluna abria sua faixa com a palavra-de-ordem principal \u201ctodo poder aos Soviets\u201d. Os Bolcheviques achavam precipitada a manifesta\u00e7\u00e3o armada, e esperavam o desfecho no front, quando a derrota russa era previs\u00edvel, para lan\u00e7ar uma ofensiva total e ganhar o conjunto das massas para derrubar o governo. Mesmo assim decidiram participar da manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea para dar uma dire\u00e7\u00e3o correta para as massas. Os conciliadores condenavam a manifesta\u00e7\u00e3o chamando-a de contrarrevolucionria, acusando os manifestantes e os bolcheviques\u00b4de quererem derrubar o governo \u00e1 for\u00e7a. E atrav\u00e9s de Kerensky apelavam para que viessem soldados do front para reprimir os manifestantes.<\/p>\n<p>De fato, o movimento sofrera uma \u201csemi-derrota\u201d com a chegada dos regimentos vindos do front para apoiar o governo, com o desarmamento dos soldados e marinheiros, com a proibi\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es de rua, com o fechamento do jornal bolchevique Pravda e a retomada do quartel-general dos Bolcheviques pelas for\u00e7as do governo provis\u00f3rio, com a pris\u00e3o de Trotsky e dos dirigentes bolcheviques e a grande cal\u00fania contra L\u00eanin, de que era um agente do Estado alem\u00e3o em territ\u00f3rio russo.<\/p>\n<p>Com a press\u00e3o das massas e com a sa\u00edda dos cadetes do governo, os conciliadores se viram obrigados a assumir o primeiro plano do poder no governo provis\u00f3rio. Em acordo com a burguesia e os partidos conciliadores, Kerensky assumiu o cargo m\u00e1ximo do Estado em 24 de julho, o de ministro-Presidente, conciliando com as pastas da Guerra e da Marinha. O L\u00edder menchevique, Tseretelli, foi al\u00e7ado para o Minist\u00e9rio do Interior.<\/p>\n<p>Para Trotsky, longe desse arranjo representar um refor\u00e7o do poder, abriu um per\u00edodo de mais crises governamentais, prolongado, \u201cque encontrou formalmente uma solu\u00e7\u00e3o a 24 de julho, solu\u00e7\u00e3o que nada mais foi do que o come\u00e7o da agonia do regime de Fevereiro, agonia que duraria 4 meses\u201d<a href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/1\/?ui=2&amp;ik=96699149f9&amp;view=lg&amp;permmsgid=msg-a%3Ar-4190849914569711794&amp;ser=1#m_7220219853012510922__edn3\"><sup>[iii]<\/sup><\/a>. Essa agonia passaria ainda por uma tentativa de golpe de Estado encabe\u00e7ado pelo general Kornilov com o apoio dos cadetes e da burguesia reacion\u00e1ria em agosto, uma Confer\u00eancia Democr\u00e1tica realizada em meados de setembro e um pr\u00e9-parlamento, ao qual os bolcheviques boicotaram, por entenderem que agora a luta pela insurrei\u00e7\u00e3o e a tomada do poder pelos oper\u00e1rios era a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para acabar com a dualidade de poderes e instaurar o socialismo na R\u00fassia. De fato, em 25 de outubro de 1917, os bolcheviques apearam os conciliadores e a burguesia do poder e instauraram o regime dos soviets, encerrando-se assim, a longa agonia do primeiro governo de frente popular da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:<\/p>\n<p>Lenin: Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1917\/08\/estadoerevolucao\/\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenin\/1917\/08\/estadoerevolucao\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PARTE I: ST\u00c1LIN E KAMENEV APOIAM O GOVERNO PROVIS\u00d3RIO Jo\u00e3o Santiago, Candidato ao Senado pelo Polo Socialista Revolucion\u00e1rio &nbsp; A Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro\u00a0de 1917 na R\u00fassia,\u00a0 iniciada com a greve das oper\u00e1rias das f\u00e1bricas de Vyborg, no dia Internacional da Mulher (23 de fevereiro)*, havia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9779,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-9778","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9778","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9778"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9778\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9779"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9778"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9778"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9778"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}