

	{"id":9782,"date":"2022-09-23T21:49:41","date_gmt":"2022-09-23T21:49:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=9782"},"modified":"2022-09-23T21:51:03","modified_gmt":"2022-09-23T21:51:03","slug":"texto-4-os-ensinamentos-da-iii-internacional-sobre-os-governos-operarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2022\/09\/23\/texto-4-os-ensinamentos-da-iii-internacional-sobre-os-governos-operarios\/","title":{"rendered":"Texto 4:\u00a0Os ensinamentos da III Internacional sobre os governos oper\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Everton Luiz, da CST no Rio de Janeiro<\/p>\n<p>As alian\u00e7as com a burguesia, o apoio pol\u00edtico ou composi\u00e7\u00e3o ministerial a determinados governos \u00e9 um tema presente na esquerda. As discuss\u00f5es sempre permeiam o car\u00e1ter do governo e das coliga\u00e7\u00f5es em quest\u00e3o e se ele deve ou n\u00e3o ser apoiado. A esquerda deveria denunciar os governos de duplo discurso ou o correto seria divergir, mas sem critic\u00e1-los abertamente perante as massas?<\/p>\n<p>Neste texto, queremos relembrar os mestres L\u00eanin e Trotsky e sua contribui\u00e7\u00e3o sobre a concilia\u00e7\u00e3o de classes a partir dos debates no seio da III Internacional, bem como seus ensinamentos sobre o que s\u00e3o os governos oper\u00e1rios e qual \u00e9 o papel dos revolucion\u00e1rios diante desse tipo de governo.<\/p>\n<p><strong>Contra a concilia\u00e7\u00e3o de classes e o estado burgu\u00eas<\/strong><\/p>\n<p>A III Internacional defendia a t\u00e1tica da frente \u00fanica, ou seja, a luta em comum com organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias reformistas, em raz\u00e3o de enfrentar a coaliza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as burguesas e, nesse processo, desmascarar os reformistas. Essa t\u00e1tica deveria se estender a todas as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, em defesa da pauta dos trabalhadores, como redu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos alimentos e taxa\u00e7\u00e3o das grandes fortunas, e pelo desarmamento dos reacion\u00e1rios, passando a armar a classe trabalhadora. Essa combina\u00e7\u00e3o entre o problema econ\u00f4mico e o problema do poder se tornaria parte essencial dos crit\u00e9rios para definir a linha frente a um governo oper\u00e1rio. Era necess\u00e1rio opor a t\u00e1tica oper\u00e1ria contra um governo burgu\u00eas, capitalista, que n\u00e3o se dispunha a enfrentar o imperialismo e a burguesia rumo \u00e0 sua derrota final, e n\u00e3o alimentar nas camadas oper\u00e1rias falsas ilus\u00f5es de que a crise causada pelos capitalistas pode ser resolvida dentro dos marcos desse sistema desigual e o Estado Burgu\u00eas. Por sua vez, os reformistas, socialdemocratas, optariam por entrar nos governos e distribuir, quando poss\u00edvel, migalhas ao povo.<\/p>\n<p>A III internacional em seus quatro primeiros congressos, se mantinha fiel as defini\u00e7\u00f5es de Marx e Engels seguindo a defini\u00e7\u00e3o de classes do Estado. Marx e Engels, tomando em conta as experi\u00eancias revolucion\u00e1rias da I internacional, diziam que\u00a0<em>\u201c<\/em><em>A\u00a0Comuna de Paris\u00a0teve mesmo de reconhecer, desde logo, que a classe oper\u00e1ria, uma vez chegada \u00e0 domina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia continuar a administrar com a velha m\u00e1quina de Estado; que esta classe oper\u00e1ria, para n\u00e3o perder de novo a sua pr\u00f3pria domina\u00e7\u00e3o, acabada de conquistar, tinha, por um lado, de eliminar a velha maquinaria de opress\u00e3o at\u00e9 a\u00ed utilizada contra si pr\u00f3pria, mas, por outro lado, de precaver-se contra os seus pr\u00f3prios deputados e funcion\u00e1rios, ao declarar estes, sem qualquer exce\u00e7\u00e3o, revog\u00e1veis a todo o momento (&#8230;) o Estado n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o uma m\u00e1quina de opress\u00e3o de uma classe por outra, e isso tanto numa rep\u00fablica democr\u00e1tica como numa monarquia&#8230;\u201d<\/em>\u00a0(Prefacio da Guerra Civil na Fran\u00e7a, 1891).<\/p>\n<p>Com base nessas conclus\u00f5es, na constru\u00e7\u00e3o do governo dos Soviets e outras batalhas, a III Internacional estabeleceu uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es para que os revolucion\u00e1rios ingressassem em um governo oper\u00e1rio que n\u00e3o fosse dirigido por partidos da III Internacional ou que n\u00e3o tenha conquistado o poder por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o. Entre essas exig\u00eancias, estava a necessidade da independ\u00eancia pol\u00edtica frente \u00e0 burguesia, tendo como exemplo m\u00e1ximo a degenera\u00e7\u00e3o do maior partido socialista do mundo, o Partido Social-Democrata da Alemanha. Em 1914, esse partido havia aprovado no parlamento, junto com a burguesia alem\u00e3, os cr\u00e9ditos de guerra, enviando milhares de trabalhadores ao front da I Guerra Mundial; o \u00fanico voto contr\u00e1rio foi o do revolucion\u00e1rio Karl Liebknecht. Dessa forma, j\u00e1 n\u00e3o havia mais independ\u00eancia pol\u00edtica da organiza\u00e7\u00e3o que unia, naquele tempo, os revolucion\u00e1rios do mundo. Pouco tempo depois, com a derrota da revolu\u00e7\u00e3o de 1919, o governo de coaliz\u00e3o da burguesia com a socialdemocracia dissolveu os conselhos de soldados e oper\u00e1rios, esmagou as greves de trabalhadores, reergueu o parlamento burgu\u00eas e culminou assassinando os lideres fundadores do Partido Comunista Alem\u00e3o, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecth.<\/p>\n<p>A crise na Alemanha foi decisiva: o capitalismo mais avan\u00e7ado do mundo derrotou a revolu\u00e7\u00e3o socialista e isso ficou na mem\u00f3ria dos revolucion\u00e1rios, que, ao redigir suas exig\u00eancias para participar ou apoiar um governo, elencaram a necessidade inegoci\u00e1vel\u00a0de que os aparatos do Estado passassem para as m\u00e3os dos trabalhadores, do controle oper\u00e1rio das f\u00e1bricas ao armamento:\u00a0<em>\u201cO programa mais elementar de um governo oper\u00e1rio deve consistir em armar o proletariado, em desarmar as organiza\u00e7\u00f5es burguesas contrarrevolucion\u00e1rias, em instaurar o controle da produ\u00e7\u00e3o e fazer recair sobre os ricos o maior peso dos impostos e em destruir a resist\u00eancia da burguesia contrarrevolucion\u00e1ria\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Governos oper\u00e1rios desse tipo enfrentar\u00e3o, de certo, uma resist\u00eancia violenta da burguesia. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio que se apoiem na mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o permanente da classe trabalhadora, algo irrealiz\u00e1vel sob um governo em concilia\u00e7\u00e3o com os patr\u00f5es. Seria como se os trabalhadores fizessem uma greve para garantir mais direitos, at\u00e9 chegar \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica, e o seu patr\u00e3o aceitasse de bom grado, por que \u00e9 o mais justo a se fazer.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a na pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos reformistas j\u00e1 havia sido posta em pr\u00e1tica pelos bolcheviques em 1917, quando derrubaram o governo de Kerensky, nomeado por Trotsky como o primeiro governo de Frente Popular da hist\u00f3ria. Os governos de coaliz\u00e3o n\u00e3o deveriam contar com os comunistas; ao contr\u00e1rio, esses deveriam denunciar todo o tempo a pol\u00edtica burguesa do governo e sua inten\u00e7\u00e3o em desviar o foco da massa trabalhadora da revolu\u00e7\u00e3o. Tal \u00e9 a li\u00e7\u00e3o da Alemanha e da R\u00fassia sovi\u00e9tica, que enfrentou o capitalismo e destruiu a ordem pol\u00edtica burguesa, substituindo-a por uma nova, na qual o soviete de trabalhadores e oper\u00e1rios ocupava o lugar dos parlamentos burgueses; armou a classe operaria para se defender da rea\u00e7\u00e3o imperialista, construindo o ex\u00e9rcito vermelho; expropriou as f\u00e1bricas e colocou o seu funcionamento sob o controle dos oper\u00e1rios, expropriando o latif\u00fandio no campo. Era esse o papel transit\u00f3rio do governo oper\u00e1rio apontado pela III Internacional: avan\u00e7ar no sentido da tomada do poder pela classe trabalhadora.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Os tipos de governo<\/strong><\/p>\n<p>No per\u00edodo do IV Congresso da III Internacional, existiram alguns tipos de governos oper\u00e1rios. Nos deteremos em dois tipos nos quais a Internacional rejeitou a participa\u00e7\u00e3o dos comunistas: os governos\u00a0<em>oper\u00e1rio-liberal<\/em>\u00a0e\u00a0<em>oper\u00e1rio socialdemocrata<\/em>.\u00a0<em>\u201cOs dois primeiros tipos de governos oper\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o governos oper\u00e1rios revolucion\u00e1rios, mas sim governos camuflados de coaliz\u00e3o entre a burguesia e os l\u00edderes oper\u00e1rios contrarrevolucion\u00e1rios. Esses \u2018governos oper\u00e1rios\u2019 s\u00e3o tolerados nos per\u00edodos cr\u00edticos de fragiliza\u00e7\u00e3o da burguesia para enganar o proletariado sobre o verdadeiro car\u00e1ter de classe do Estado ou para postergar o ataque revolucion\u00e1rio do proletariado e ganhar tempo, com a ajuda dos l\u00edderes oper\u00e1rios corrompidos. Os comunistas n\u00e3o dever\u00e3o participar em semelhantes governos. Pelo contr\u00e1rio, desmascarar\u00e3o impiedosamente perante as massas o verdadeiro car\u00e1ter destes falsos \u2018governos oper\u00e1rios\u2019&#8230;\u201d<\/em>. Essa foi a pol\u00edtica da Internacional de Lenin e Trotsky frente a esses governos.<\/p>\n<p>Os governos oper\u00e1rio-camponeses, sem patr\u00f5es, nos quais se pode participar ainda que n\u00e3o fossem uma ditadura do proletariado, poderiam ser utilizados como seu ponto de partida. Nesse sentido tamb\u00e9m trabalha o Partido Comunista, dizendo ao proletariado que suas mazelas s\u00f3 poder\u00e3o ser aniquiladas a partir da tomada do poder e da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>S\u00e3o ensinamentos v\u00e1lidos, pois, atualmente, muitas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o defendem o crit\u00e9rio adotado pela III Internacional. No Brasil, por exemplo, \u00e9 o que vemos com a participa\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es do PSOL em governos comuns com a burguesia. No primeiro governo Lula, v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es ultrapassaram a fronteira da independ\u00eancia de classe. A DS, que naquele momento era uma corrente pertencente \u00e0 autodenominada \u201cIV Internacional\u201d (antigo SU), ocupou um minist\u00e9rio no primeiro governo de coaliza\u00e7\u00e3o de Lula (que tinha como vice o Industrial Jos\u00e9 Alencar). N\u00e3o participar dos atuais governos da frente ampla, seja nos estados ou em prefeituras, como a de Edmilson, em Bel\u00e9m, \u00e9 uma quest\u00e3o de princ\u00edpios que n\u00f3s, da CST, mantemos de p\u00e9. Seguimos, assim, os ensinamentos da III Internacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:<\/p>\n<p><strong>A III Internacional e a constru\u00e7\u00e3o de partidos revolucion\u00e1rios em todo o mundo<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2022\/01\/17\/9028\/\">https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2022\/01\/17\/9028\/<\/a><\/p>\n<p><strong>III internacional uma escola de Estrat\u00e9gia Revolucion\u00e1ria:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2019\/07\/26\/iii-internacional-uma-escola-de-estrategia-revolucionaria\/\">https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2019\/07\/26\/iii-internacional-uma-escola-de-estrategia-revolucionaria\/<\/a><\/p>\n<p><strong>Teses Sobre a Quest\u00e3o Parlamentar \u2013 III Internacional, Julho de 1920<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2020\/07\/20\/teses-sobre-a-questao-parlamentar-iii-internacional-julho-de-1920\/\">https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2020\/07\/20\/teses-sobre-a-questao-parlamentar-iii-internacional-julho-de-1920\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Everton Luiz, da CST no Rio de Janeiro As alian\u00e7as com a burguesia, o apoio pol\u00edtico ou composi\u00e7\u00e3o ministerial a determinados governos \u00e9 um tema presente na esquerda. 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