

	{"id":9790,"date":"2022-09-23T22:18:51","date_gmt":"2022-09-23T22:18:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=9790"},"modified":"2023-11-01T10:49:56","modified_gmt":"2023-11-01T13:49:56","slug":"9790","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2022\/09\/23\/9790\/","title":{"rendered":"Texto 6 &#8211; Josef Stalin transforma a\u00a0frente\u00a0popular\u00a0em uma estrat\u00e9gia permanente"},"content":{"rendered":"<p><em>M.Tunes, Coordena\u00e7\u00e3o da CST<\/em><\/p>\n<p>No VII Congresso da Internacional Comunista, dirigida por Josef Stalin, votou-se, pela primeira vez, transformar a colabora\u00e7\u00e3o de classes em uma estrat\u00e9gia geral, em escala mundial e em cada pa\u00eds. Foi votada com o nome de \u201c<em>frente popular antifascista<\/em>\u201d. Uma virada profunda no movimento oper\u00e1rio e no movimento comunista, impondo uma estrat\u00e9gia de alian\u00e7a de classe com a burguesia. Essa linha marcou o conjunto do Movimento Comunista, em suas v\u00e1rias alas e suas tr\u00e1gicas consequ\u00eancias e derrotas s\u00e3o sentidas at\u00e9 hoje. De fato, a linha do VII Congresso sacramentou uma ruptura com o Marxismo.<\/p>\n<h2>Marx e Engels e liberta\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora<\/h2>\n<p>At\u00e9 aqui, percorrendo os textos anteriores deste especial, vimos que o movimento oper\u00e1rio na I Internacional agrupava v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. Marx e Engels militaram nesse per\u00edodo e lutaram pela independ\u00eancia pol\u00edtica da classe trabalhadora. Com eles, aprendemos que dever\u00edamos lutar pela conquista do poder pol\u00edtico, quebrar a m\u00e1quina estatal burguesa, expropriar os capitalistas e instaurar uma ditadura revolucion\u00e1ria do proletariado para transitar da sociedade capitalista para o comunismo. Ap\u00f3s as revolu\u00e7\u00f5es de 1848, Karl Marx e Friedrich Engels tiraram as conclus\u00f5es sobre o papel contrarrevolucion\u00e1rio da burguesia e afirmaram tamb\u00e9m que o partido do proletariado tinha de se manter independente dos democratas pequeno-burgueses. Diziam nosso mestres: \u201c<em>No momento presente, em que os pequeno-burgueses democratas s\u00e3o oprimidos por toda a parte, eles pregam ao proletariado em geral a uni\u00e3o e a concilia\u00e7\u00e3o, estendem-lhe a m\u00e3o e aspiram \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um grande partido de oposi\u00e7\u00e3o que abarque todos os matizes no partido democr\u00e1tico; isto \u00e9, anseiam por envolver os oper\u00e1rios numa organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria onde predominem as frases sociais-democratas gerais, atr\u00e1s das quais se escondem os seus interesses particulares e onde as reivindica\u00e7\u00f5es bem determinadas do proletariado n\u00e3o possam ser apresentadas por mor da querida paz. Uma tal uni\u00e3o resultaria apenas em proveito deles e em completo desproveito do proletariado. O proletariado perderia toda a sua posi\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma arduamente conseguida e afundar-se-ia outra vez, tornando-se ap\u00eandice da democracia burguesa oficial. Essa uni\u00e3o tem de ser recusada, por conseguinte, da maneira mais decidida. Em vez de condescender uma vez mais em servir de claque dos democratas burgueses, os oper\u00e1rios, principalmente a Liga, t\u00eam de trabalhar para constituir, ao lado dos democratas oficiais, uma organiza\u00e7\u00e3o do partido oper\u00e1rio, aut\u00f4noma, secreta e p\u00fablica, e para fazer de cada comunidade o centro e o n\u00facleo de agrupamentos oper\u00e1rios, nos quais a posi\u00e7\u00e3o e os interesses do proletariado sejam discutidos independentemente das influ\u00eancias burguesas&#8230;\u201d<\/em>\u00a0(<strong>Mensagem da Dire\u00e7\u00e3o Central \u00e0 Liga dos Comunistas, Mar\u00e7o de 1850).<\/strong><\/p>\n<p>Indo al\u00e9m, orientavam explicitamente que essa organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma do partido do proletariado deveria se expressar em todos os setores, inclusive nas elei\u00e7\u00f5es, com campanhas independentes das demais classes. Vejamos nas pr\u00f3prias palavras de Marx e Engels:\u00a0<em>\u201cPor toda a parte, ao lado dos candidatos democr\u00e1ticos burgueses, sejam propostos candidatos oper\u00e1rios, na medida do poss\u00edvel de entre os membros da Liga e para cuja elei\u00e7\u00e3o se devem acionar todos os meios poss\u00edveis. Mesmo onde n\u00e3o existe esperan\u00e7a de sucesso, devem os oper\u00e1rios apresentar os seus pr\u00f3prios candidatos, para manterem a sua democracia, para manterem a sua autonomia, contarem as suas for\u00e7as, trazerem a p\u00fablico a sua posi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e os pontos de vista do partido. N\u00e3o devem, neste processo, deixar-se subornar pelas frases dos democratas, como por exemplo que assim se divide o partido democr\u00e1tico e se d\u00e1 \u00e0 rea\u00e7\u00e3o a possibilidade da vit\u00f3ria. Com todas essas frases, o que se visa \u00e9 que o proletariado seja mistificado. Os progressos que o partido prolet\u00e1rio tem de fazer, surgindo assim como for\u00e7a independente, s\u00e3o infinitamente mais importantes do que o preju\u00edzo que poderia trazer a presen\u00e7a de alguns reacion\u00e1rios na Representa\u00e7\u00e3o\u201d (idem)<\/em>.<\/p>\n<h2>A II Internacional sofre um processo de burocratiza\u00e7\u00e3o e sucumbe perante a burguesia<\/h2>\n<p>A II Internacional manteve de p\u00e9 esse princ\u00edpio e esse programa por um certo tempo, constituiu importantes partidos socialistas e ganhou amplas camadas da classe oper\u00e1ria na Europa para o marxismo.\u00a0 Seus congressos internacionais espalharam essas ideias pelo mundo. Por\u00e9m, seu crescimento, numa fase de expans\u00e3o imperialista, quando uma aristocracia oper\u00e1ria se beneficiava com as reformas que o capitalismo ainda podia oferecer, gerou sua pr\u00f3pria ru\u00edna. Ela foi destru\u00edda pelos reformistas quando aprovaram os \u201ccr\u00e9ditos de guerra\u201d, em 1914, ou seja, quando apoiaram suas pr\u00f3prias burguesias imperialistas na Primeira Guerra Mundial. Por\u00e9m, mesmo com a II Internacional em seu processo de burocratiza\u00e7\u00e3o, a colabora\u00e7\u00e3o de classes nunca havia sido estabelecida como estrat\u00e9gia permanente, em n\u00edvel nacional e internacional. Veja aqui mesmo, neste especial, que, em geral, os reformistas da II Internacional tratavam de vencer elei\u00e7\u00f5es sem alian\u00e7as com a burguesia. A crise dos \u201csocialistas franceses\u201d, a partir do ingresso de Millerand num governo burgu\u00eas, foi tratada pelos oportunistas como\u00a0<em>\u201ccaso excepcional\u201d<\/em>. Evidentemente, tratou-se de uma parte do processo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem burguesa, que seria explicitada em 1914. Os oportunistas na II internacional, que majoritariamente apoiaram suas burguesias imperialistas, foram combatidos por uma ala esquerda minorit\u00e1ria, que, naquele momento, abarcava dirigentes como Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Clara Zetkin, L\u00eanin, Zinoviev, Radek e Trotsky.<\/p>\n<h2>A III Internacional retomou a estrat\u00e9gia marxista<\/h2>\n<p>A III internacional, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, liderada por Lenin e Trotsky, retomou o caminho de independ\u00eancia de classe e o marxismo revolucion\u00e1rio. Em primeiro lugar, porque combateram e derrotaram a estrat\u00e9gia dos mencheviques, que defendiam uma frente de colabora\u00e7\u00e3o de classes com a burguesia russa. Os bolcheviques triunfaram nos sovietes, ganhando a maioria da classe operaria e do campesinato, e se concretizou na pr\u00e1tica a revolu\u00e7\u00e3o proposta por Marx e Engels. Em seus quatro primeiros congressos, a classe trabalhadora foi reagrupada sob a bandeira bolchevique. J\u00e1 vimos aqui nesse especial que a III Internacional foi expl\u00edcita contra qualquer concilia\u00e7\u00e3o de classes. Em seu IV Congresso, realizado em novembro de 1922, define em sua\u00a0<strong><em>\u201cResolu\u00e7\u00e3o sobre a t\u00e1tica da Internacional Comunista\u201d<\/em><\/strong>\u00a0sua nega\u00e7\u00e3o em compor governos comuns com a burguesia, criticando duramente a socialdemocracia e sua estrat\u00e9gia reformista. Vejamos nas palavras da pr\u00f3pria resolu\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>\u201cOs partidos da II Internacional tratam de \u2018salvar\u2019 a situa\u00e7\u00e3o em seus pa\u00edses prevendo e levando \u00e0 pr\u00e1tica a coaliz\u00e3o dos burgueses e dos socialdemocratas&#8230; Perante a coaliz\u00e3o aberta ou sorrateira da burguesia e da socialdemocracia, os comunistas op\u00f5em a frente \u00fanica de todas as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e a coaliz\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica de todos os partidos oper\u00e1rios contra o poder burgu\u00eas para a derrota definitiva deste \u00faltimo. Na luta comum dos oper\u00e1rios contra a burguesia, todo o aparato do Estado dever\u00e1 passar para as m\u00e3os do governo oper\u00e1rio e desse modo as posi\u00e7\u00f5es da classe operaria resultar\u00e3o fortalecidas\u201d.<\/em>\u00a0A III Internacional manteve de p\u00e9 a estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria de Marx e Engels. Foi somente com a degenera\u00e7\u00e3o stalinista que a pol\u00edtica reformista de colabora\u00e7\u00e3o de classes retorna e, al\u00e9m disso, \u00e9 ampliada em uma escala inimagin\u00e1vel. Sob a condu\u00e7\u00e3o de Stalin, a colabora\u00e7\u00e3o de classes, dita \u201cexcepcional\u201d pelos\u00a0<em>Millerandista<\/em>\u00a0ou \u201cnacional\u201d pelos Mencheviques, se torna uma estrat\u00e9gia permanente em escala internacional e para todos os pa\u00edses.<\/p>\n<h2>O Stalinismo significou um retrocesso em dire\u00e7\u00e3o ao etapismo e ao reformismo<\/h2>\n<p>Na URSS, no Partido Comunista Russo e na Internacional Comunista, instalou-se uma burocracia que abandonou a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o mundial e fez de tudo para manter seus privil\u00e9gios na lideran\u00e7a do\u00a0<em>Estado Oper\u00e1rio degenerado.\u00a0<\/em>Uma de suas principais teses era a da\u00a0<strong>revolu\u00e7\u00e3o por etapas<\/strong>. Trata-se de uma divis\u00e3o mec\u00e2nica da luta de classes, na qual se afirma que as revolu\u00e7\u00f5es socialistas compreendem necessariamente uma primeira fase burguesa ou pequeno burguesa, com fins exclusivamente democr\u00e1ticos ou anti-imperialistas. Isso subordina o movimento oper\u00e1rio aos limites da ordem burguesa e contraria o pr\u00f3prio bolchevismo e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Na Internacional Comunista, isso gerou, por exemplo, na China, a imposi\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Kuomintang<\/em>\u00a0como membro simpatizante da Internacional Comunista e de seu l\u00edder, Chiang Kai Shek, como membro de sua dire\u00e7\u00e3o. O Kuomintang n\u00e3o era um partido oper\u00e1rio, mas um partido nacionalista burgu\u00eas. Essa linha teve como resultado o massacre dos oper\u00e1rios e do Partido Comunista chineses em 1927.<\/p>\n<p>O VI Congresso da IC, realizado em 1928, oficializou o chamado\u00a0<strong><em>\u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d<\/em><\/strong>. Uma ruptura com a revolu\u00e7\u00e3o internacional defendida por L\u00eanin e pelos bolcheviques. A partir dessa nova linha, abandonou-se o internacionalismo prolet\u00e1rio em nome da ideia equivocada de que um pa\u00eds socialista poderia se desenvolver de forma isolada. Da\u00ed, deriva a ideologia de que a URSS poderia construir seu pr\u00f3prio socialismo, utilizando seus pr\u00f3prios recursos, desde que n\u00e3o houvesse uma nova interven\u00e7\u00e3o imperialista. Isso justifica a defesa da URSS n\u00e3o por meio da luta de classes e da revolu\u00e7\u00e3o internacional, mas pela via da diplomacia e da colabora\u00e7\u00e3o de classes com determinadas pot\u00eancias capitalistas. De tal modo que a IC e suas se\u00e7\u00f5es nacionais se transformam em linhas auxiliares da constru\u00e7\u00e3o socialista nacional da URSS, para evitar a interven\u00e7\u00e3o imperialista e permitir que a autarquia socialista seguisse viva e avan\u00e7ando. \u00c9 decretada a morte do bolchevismo e da estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria mundial, da conquista do poder pol\u00edtico pelo proletariado dirigido por um partido revolucion\u00e1rio. Com ziguezagues \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, essa ideologia n\u00e3o mudava.\u00a0\u00c9 o que resultaria pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista em 1943 e\u00a0mais \u00e0 frente na\u00a0chamada \u201c<strong>coexist\u00eancia pac\u00edfica<\/strong>\u201d com o imperialismo.<\/p>\n<p>Esse mesmo Congresso tamb\u00e9m elaborou as teses do \u201cterceiro per\u00edodo\u201d, instalando uma linha ultraesquerdista que levou os PC a derrotas no mundo todo, sendo a mais importante delas e divis\u00e3o da classe oper\u00e1ria perante o monstro nazista na Alemanha (quando o PC se negou a fazer unidade de a\u00e7\u00e3o com o Partido Socialista para lutar contra Hitler, expressando um sectarismo desastroso). Mesmo na fase\u00a0<em>ultraesquerdista<\/em>, a estrat\u00e9gia etapista se mantinha: os pa\u00edses coloniais e semicoloniais teriam de fazer primeiros revolu\u00e7\u00f5es\u00a0<strong>agr\u00e1rias e anti-imperialistas<\/strong>, pois essa seria a fase\u00a0<em>democr\u00e1tico-burguesa\u00a0<\/em>da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Stalin e sua fra\u00e7\u00e3o se consolidaram \u00e0 frente da URSS e da Internacional Comunista expurgando lideran\u00e7as como Zinoviev, Kamenev, Trotsky e Bukarin, reprimindo toda e qualquer oposi\u00e7\u00e3o, como nos nefastos Processos de Moscou. Esses m\u00e9todos de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estavam a servi\u00e7o de impor a pol\u00edtica etapista e reformista, sendo, para tanto, necess\u00e1rio expurgar as antigas lideran\u00e7as bolcheviques ligadas \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de outubro de 1917. Assassinou at\u00e9 mesmo lideran\u00e7as que colaboraram com sua lideran\u00e7a, como Zinoviev, Kamenev ou Bukarin, ou mesmo integrantes da fra\u00e7\u00e3o Stalinista.<\/p>\n<h2>O VII Congresso da Internacional Comunista<\/h2>\n<p>O VII Congresso da Internacional Comunista ocorreu em meio \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do poder de Stalin e \u00e0 derrota que significou a ascens\u00e3o do nazismo na Alemanha. Naquele congresso, em 1935, se preparou um giro brusco em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s frentes populares. Utilizando-se do fortalecimento do fascismo \u2013 ajudado pelos erros ultresquerdistas dos PC\u2019s em todo o mundo \u2013 Stalin elaborou essa linha de concilia\u00e7\u00e3o de classes. A partir desse momento, os PC\u2019s v\u00e3o se aliar ou apoiar setores da burguesia ou do imperialismo, chamados de democr\u00e1ticos. S\u00e3o as frentes populares, alian\u00e7as dos partidos oper\u00e1rios com partidos ou lideran\u00e7as burguesas, onde se integram ainda os partidos pequeno-burgueses.<\/p>\n<p>O informe de Georgi Dimitrov no VII Congresso da IC \u00e9 explicito com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s frentes comuns com a burguesia:\u00a0<em>\u201cNos pa\u00edses capitalistas, a maioria destes partidos e organiza\u00e7\u00f5es \u2014 tanto econ\u00f4micas como pol\u00edticas \u2014 se encontra ainda sob a influ\u00eancia da burguesia e acompanha esta. A composi\u00e7\u00e3o social destes partidos e organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea. Nela aparecem, ao lado dos camponeses, os muito ricos; ao lado de pequenos comerciantes, os homens de grandes neg\u00f3cios; mas a dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 na m\u00e3o dos \u00faltimos, os agentes do grande capital. Isto nos obriga a dar a estas organiza\u00e7\u00f5es um tratamento diferente, levando em conta que, com frequ\u00eancia, a massa de seus filiados n\u00e3o conhece a verdadeira face pol\u00edtica de sua pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o. Em determinadas circunst\u00e2ncias, podemos e devemos dirigir nossos esfor\u00e7os no sentido de ganhar para a frente popular antifascista estes partidos e organiza\u00e7\u00f5es ou setores isolados deles apesar de sua dire\u00e7\u00e3o burguesa. Assim acontece atualmente na Fran\u00e7a, por exemplo, com o partido radical&#8230;\u201d (o informe de Dimitrov pode ser lido aqui:\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dimitrov\/1935\/fascismo\/index.htm\"><em>https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dimitrov\/1935\/fascismo\/index.htm<\/em><\/a><em>).<\/em><\/p>\n<p>O Partido Radical na Fran\u00e7a era um partido burgu\u00eas. Trotsky, profundo conhecedor da experi\u00eancia francesa, dir\u00e1 que a frente popular \u00e9 \u201c<em>uma alian\u00e7a do proletariado com a burguesia imperialista, representada pelo Partido Radical, e outros despojos da mesma esp\u00e9cie e menor envergadura\u201d.\u00a0<\/em>O informe de Dimitrov, sem fazer nenhum balan\u00e7o profundo da desastrosa fase do \u201cterceiro per\u00edodo\u201d, tenta camuflar a nova linha sob a apar\u00eancia de um retorno \u00e0 pol\u00edtica da frente \u00fanica oper\u00e1ria (a unidade entre partidos do proletariado para a\u00e7\u00f5es contra a burguesia, visando desmascarar os reformistas e ganhar a maioria da classe para a revolu\u00e7\u00e3o). Na realidade, por\u00e9m, o VII Congresso, com a sua pol\u00edtica das frentes populares, n\u00e3o \u00e9 um retorno ao bolchevismo, mas uma nova diretriz oportunista. Estamos diante de um salto que transforma as frentes populares, a linha de colabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com os inimigos de classe do proletariado, em uma estrat\u00e9gia global e permanente. A III Internacional, marxista e revolucion\u00e1ria, herdeira da revolu\u00e7\u00e3o de outubro, estava morta sob a condu\u00e7\u00e3o stalinista. O seu programa bolchevique, expresso em seus quatro primeiros congressos, foi abandonado e enterrado.<\/p>\n<h2>Dimitrov, Stalin e dois\u00a0exemplos das linha frente-populista<\/h2>\n<p>Vejamos nas palavras de Dimitrov do que estamos tratando:<em>\u00a0\u201c<\/em><em>se considerarmos que pode surgir uma situa\u00e7\u00e3o em que a cria\u00e7\u00e3o de um governo de frente \u00fanica prolet\u00e1ria ou de frente popular antifascista seja n\u00e3o somente poss\u00edvel, mas indispens\u00e1vel, no interesse do proletariado, aceitamos, com efeito, esta eventualidade. E neste caso, interviremos sem nenhuma vacila\u00e7\u00e3o em favor da cria\u00e7\u00e3o desse governo (&#8230;)\u00c9, antes de tudo, um governo de luta contra o fascismo e a rea\u00e7\u00e3o&#8230; No momento oportuno, apoiando-se no movimento ascensional da frente \u00fanica, o Partido Comunista do pa\u00eds em quest\u00e3o se manifestar\u00e1 pela cria\u00e7\u00e3o de semelhante governo, sobre a base de uma plataforma antifascista concreta<\/em>\u201d. O que est\u00e1 em quest\u00e3o, apesar dos rodeios, das dificuldades de superar o\u00a0<em>\u201cterceiro per\u00edodo\u201d<\/em>\u00a0sem realizar um balan\u00e7o, \u00e9 instala\u00e7\u00e3o dos governos comuns com a burguesia.\u00a0 Essa pol\u00edtica, denominada de\u00a0<em>governos da frente popular antifascista<\/em>, tem como tarefas a\u00a0<em>\u201cluta contra o fascismo e a rea\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>, em cujo programa figura centralmente\u00a0<em>\u201cuma plataforma antifascista\u201d<\/em>. \u00c9 o que posteriormente abriu caminho para a participa\u00e7\u00e3o ou o apoio dos Partidos Comunistas aos governos burgueses na Europa e a todo tipo de pol\u00edticas e governos de colabora\u00e7\u00e3o de classes nos pa\u00edses semicoloniais.<\/p>\n<p>Em 1936, no contexto da Guerra Civil Espanhola, o pr\u00f3prio Stalin d\u00e1 uma demonstra\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter contrarrevolucion\u00e1rio dessa estrat\u00e9gia. Em uma\u00a0carta ao governo republicano espanhol<strong>,\u00a0<\/strong>Stalin afirma:\u00a0<em>\u201cSeria conveniente atrair, para o lado do governo, a burguesia urbana pequena e m\u00e9dia ou em todo caso dar-lhe a possibilidade de adotar atitude de neutralidade favor\u00e1vel ao governo ao proteg\u00ea-las de todo confisco&#8230;. N\u00e3o se deve rejeitar os dirigentes dos partidos republicanos, mas, ao contr\u00e1rio, atra\u00ed-los, aproximar-se deles e associ\u00e1-los ao esfor\u00e7o comum do governo [&#8230;]. Isso \u00e9 igualmente necess\u00e1rio para impedir que os inimigos da rep\u00fablica n\u00e3o vejam nela uma rep\u00fablica comunista [&#8230;]. Poderemos aproveitar a ocasi\u00e3o na impressa para declarar que o governo da Espanha n\u00e3o tolerar\u00e1 que algo atente contra a propriedade e os interesses legitimo dos estrangeiros na Espanha<\/em>.\u201d (Guerra y Revoluci\u00f3n, t.II, citado por Broue). As tarefas antifascistas ficam aqui expl\u00edcitas quando se prop\u00f5e atrair setores burgueses, ou mesmo a \u201csombra da burguesia\u201d, e se orientava a n\u00e3o atentar\u00a0<em>\u201ccontra a propriedade e os interesses\u201d<\/em>\u00a0burgueses e imperialistas. \u00c9 preciso acrescentar apenas que, se a linha de 1935 era justificada pela suposta necessidade de \u201ccombate ao fascismo\u201d, tudo isso foi ignorado em prol dos interesses diplom\u00e1ticos da URSS: em 1939, foi assinado o acordo germano-sovi\u00e9tico, entre URSS e Alemanha. Trata-se do famoso acordo Hitler-Stalin, assinado pelos embaixadores Molotov e Ribbentrop, no qual a URSS acertava uma pol\u00edtica de n\u00e3o-agress\u00e3o justamente com os nazistas.<\/p>\n<h2>Luiz Carlos Prestes e a concilia\u00e7\u00e3o de classes no Brasil<\/h2>\n<p>No Brasil, o PCB aplicou as linhas do movimento comunista internacional. Vejamos um exemplo dessa pol\u00edtica expressa pela maior lideran\u00e7a do PCB,\u00a0Luiz Carlos Prestes.<strong>\u00a0<\/strong>No discurso<strong>\u00a0\u201cUni\u00e3o Nacional Para a Democracia e o Progresso<\/strong>\u201d, em 1945,<strong>\u00a0<\/strong>ele afirma\u00a0<em>\u201c<\/em><em>Brasileiros! Trabalhadores! Povo Carioca&#8230; \u00c9 com a mais funda emo\u00e7\u00e3o que participo desta festa em que o povo essencialmente democrata e antifascista de nossa querida cidade festeja\u00a0[&#8230;]. Antes da guerra, n\u00f3s, comunistas, lut\u00e1vamos contra a democracia burguesa aliada dos senhores feudais mais reacion\u00e1rios e submissa ao capital estrangeiro colonizador, opressor, explorador e imperialista. Hoje, o problema \u00e9 outro, a democracia burguesa volta-se para a esquerda, a classe oper\u00e1ria tem a possibilidade de aliar-se com a pequena-burguesia do campo e da cidade e com a parte democrata e progressista da burguesia nacional contra a minoria reacion\u00e1ria e aquela parte igualmente reacion\u00e1ria do capital estrangeiro colonizador [&#8230;]\u201d (Dispon\u00edvel aqui <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/prestes\/1945\/05\/23.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/prestes\/1945\/05\/23.htm<\/a>). <\/em>Dez anos ap\u00f3s o VII Congresso, ap\u00f3s a pr\u00f3pria dissolu\u00e7\u00e3o da III Internacional, o discurso \u00e9 cristalino e fala por si s\u00f3. Se algu\u00e9m ainda tem d\u00favidas, deixemos que o pr\u00f3prio Prestes esclare\u00e7a o car\u00e1ter de classe da \u201cuni\u00e3o nacional\u201d que o PCB defendia: \u201c<em>Na realiza\u00e7\u00e3o progressiva e pac\u00edfica, dentro da ordem e da lei, de um tal programa, est\u00e1 sem d\u00favida a \u00fanica sa\u00edda para a grande crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social que atravessamos. E \u00e9 por estarmos convencidos disto que, num gesto de lealdade e de superior patriotismo, estendemos a m\u00e3o a todos os homens honestos, democratas e progressistas sinceros, seja qual for sua posi\u00e7\u00e3o social, assim como seus pontos de vista ideol\u00f3gicos ou filos\u00f3ficos e seus credos religiosos. S\u00f3 assim alcan\u00e7aremos a verdadeira uni\u00e3o nacional sem a qual seremos presa f\u00e1cil do fascismo e dos agentes do capital estrangeiro mais reacion\u00e1rio que, na defesa de seus interesses, fomenta a desordem e prega a desuni\u00e3o<\/em>\u201d. Vemos aqui um exemplo do reformismo stalinista no terreno nacional. A linha frente populista \u00e9 elevada \u00e0 m\u00e1xima pot\u00eancia, na defesa da \u201cuni\u00e3o nacional\u201d.<\/p>\n<h2>O stalinismo n\u00e3o \u00e9 bolchevismo<\/h2>\n<p>Ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, o movimento comunista se dispersou em v\u00e1rias alas. No Brasil, seus representantes ligados ao PCUS Russo, ao PC Chin\u00eas mao\u00edsta, ao PC Cubano castrista ou ao PC Alban\u00eas de\u00a0Enver Hoxha, com idas e vindas, mesmo em suas fases ultraesquerdistas, defenderam as teses stalinistas de revolu\u00e7\u00e3o por etapas, socialismo num s\u00f3 pais, o acordo Hitler-Stalin e as resolu\u00e7\u00f5es frente populistas do VII Congresso da Internacional Comunista. Stalin e seus disc\u00edpulos, como Dimitrov e Prestes, defenderam alian\u00e7as com a burguesia, a preserva\u00e7\u00e3o da propriedade privada e a democracia burguesa e fizeram de tudo para restringir a revolu\u00e7\u00e3o mundial, o oposto da linha bolchevique. Vejamos nas palavras de L\u00eanin:\u00a0<em>\u201cO proletariado luta pelo derrubamento revolucion\u00e1rio da burguesia imperialista, a pequena-burguesia pelo \u2018aperfei\u00e7oamento\u2019 reformista do imperialismo, pela adapta\u00e7\u00e3o a ele,\u00a0submetendo-se\u00a0a ele\u201d<\/em>. L\u00eanin diz ainda mais:\u00a0<em>\u201cA \u2018democracia pura\u2019 \u00e9 uma frase mentirosa de liberal que procura enganar os oper\u00e1rios. <\/em><em>A hist\u00f3ria conhece a democracia burguesa, que vem substituir o feudalismo, e a democracia prolet\u00e1ria, que vem substituir a burguesa\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental refletir detidamente sobre os princ\u00edpios e os programas do marxismo revolucion\u00e1rio e compar\u00e1-lo com a linha de Stalinista de concilia\u00e7\u00e3o de classes.\u00a0Nessa reflex\u00e3o, podem identificar que a linha da\u00a0frente popular \u00e9 completamente incompat\u00edvel com a linha Bolchevique-Leninista. O VI congresso da IC significou uma ruptura total com\u00a0marxismo. O mais consequente e corajoso combate contra essa degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e reformista veio pelas m\u00e3os da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda Internacional, os Bolcheviques Leninistas, liderada por Leon Trotski, posteriormente o que d\u00e1 origem a funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M.Tunes, Coordena\u00e7\u00e3o da CST No VII Congresso da Internacional Comunista, dirigida por Josef Stalin, votou-se, pela primeira vez, transformar a colabora\u00e7\u00e3o de classes em uma estrat\u00e9gia geral, em escala mundial e em cada pa\u00eds. Foi votada com o nome de \u201cfrente popular antifascista\u201d. 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