

	{"id":9794,"date":"2022-09-23T22:58:04","date_gmt":"2022-09-23T22:58:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=9794"},"modified":"2022-09-23T22:58:04","modified_gmt":"2022-09-23T22:58:04","slug":"texto-7-a-luta-de-trotsky-contra-a-frente-popular-na-franca-e-espanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2022\/09\/23\/texto-7-a-luta-de-trotsky-contra-a-frente-popular-na-franca-e-espanha\/","title":{"rendered":"Texto 7: A luta de Trotsky contra a frente popular na Fran\u00e7a e Espanha"},"content":{"rendered":"<p><strong>Henrique Lignani, CST Rio de Janeiro<\/strong><\/p>\n<p>No presente texto, vamos abordar algumas das consequ\u00eancias pr\u00e1ticas da pol\u00edtica imposta pela IC, por Stalin e por Dimitrov ap\u00f3s 1935, ou seja, situa\u00e7\u00f5es concretas em que os Partidos Comunistas atuaram como um bra\u00e7o da burguesia na sustenta\u00e7\u00e3o do regime capitalista. Os casos da Fran\u00e7a e da Espanha, ainda na d\u00e9cada de 1930, s\u00e3o dois dos mais emblem\u00e1ticos.<\/p>\n<p><strong>A Frente Popular na Fran\u00e7a\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A Fran\u00e7a foi um dos primeiros laborat\u00f3rios da pol\u00edtica de Frente Popular, antes mesmo da guinada ditada pela IC. Em 1934, a dire\u00e7\u00e3o stalinista da Internacional ainda seguia a linha do chamado \u201cterceiro per\u00edodo\u201d, pela qual recusava a unidade de a\u00e7\u00e3o com as correntes oper\u00e1rias reformistas contra o fascismo. No ano anterior, Hitler j\u00e1 havia chegado ao poder na Alemanha, ajudado justamente por essa pol\u00edtica da IC; em fevereiro daquele ano de 1934, na Fran\u00e7a, movimentos fascistas se articularam e promoveram uma tentativa de golpe, em um epis\u00f3dio que acabou com 12 mortos, mais de 200 feridos e a demiss\u00e3o do governo ent\u00e3o existente (BROU\u00c9, 2007). Em seu lugar, subiu um governo liderado por Doumergue e caracterizado por Trotsky como bonapartista. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que a\u00e7\u00f5es em comum entre o PCF e o SFIO (partido da socialdemocracia na Fran\u00e7a) se imp\u00f5em pela base, culminando em um chamado de greve geral.<\/p>\n<p>Enquanto tal cen\u00e1rio se desenrolava na Fran\u00e7a, em 1935 foi realizado o j\u00e1 mencionado VII Congresso da IC, que sob o pretexto de \u201ccombater o fascismo\u201d adotam uma linha oportunista de colabora\u00e7\u00e3o de classes para os PC\u2019s ao redor do mundo (ver o \u00faltimo texto deste especial). Para o PC Franc\u00eas, a Frente Popular vai se traduzir na formaliza\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a n\u00e3o apenas com a socialdemocracia, mas com o Partido Radical, um partido republicano e liberal. O argumento apresentado era de que se tratava de uma \u201calian\u00e7a com as classes m\u00e9dias\u201d, o que ocultava que tal partido tinha um car\u00e1ter de classe burgu\u00eas. De acordo com a defini\u00e7\u00e3o de Trotsky, \u201cos radicais s\u00e3o o partido democr\u00e1tico do imperialismo franc\u00eas\u201d (TROTSKY, 1936a).<\/p>\n<p>A alian\u00e7a entre comunistas, socialistas e radicais na Fran\u00e7a se apresentou para as disputas eleitorais no ano de 1936. O contexto, por\u00e9m, era de acirramento da luta de classes. Ao mesmo tempo em que havia grupos armados de inspira\u00e7\u00e3o fascista, greves oper\u00e1rias aconteciam e ultrapassavam os limites das suas dire\u00e7\u00f5es, fossem ligadas ao PCF ou \u00e0 socialdemocracia. Sequer a vit\u00f3ria eleitoral da Frente Popular e a constitui\u00e7\u00e3o do governo do socialista Leon Blum foram capazes de frear o movimento oper\u00e1rio. O historiador Pierre Brou\u00e9 descreve essa onda grevista como sendo \u201c\u00fanica na hist\u00f3ria\u201d, at\u00e9 aquele momento, e que o \u201cmovimento, escapando ao controle das organiza\u00e7\u00f5es sindicais, causava medo, pois ele podia anunciar o come\u00e7o de uma revolu\u00e7\u00e3o, um espectro que todos tentavam conjurar\u201d (BROU\u00c9, 2007).<\/p>\n<p>Ainda segundo Brou\u00e9, naquele contexto \u201co PC tem que fazer uma escolha: se ele continuasse a acompanhar e a apoiar os grevistas e suas reivindica\u00e7\u00f5es, ele avan\u00e7aria demais, separar-se-ia do governo e dos radicais na Frente Popular\u201d (BROU\u00c9, 2007). A resolu\u00e7\u00e3o adotada pelo Comit\u00ea Central do partido n\u00e3o deixa d\u00favidas a respeito da op\u00e7\u00e3o escolhida pelos stalinistas: \u201cO PC, consciente de suas responsabilidades, tomou corajosamente assim posi\u00e7\u00e3o sem temer enfrentar \u00e0s gesticula\u00e7\u00f5es hist\u00e9ricas dos trotskistas e trotskisantes [&#8230;]. Tudo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel; a palavra de ordem capital do partido continua: \u2018Tudo para a Frente Popular! Tudo atrav\u00e9s da Frente Popular!\u2019\u201d (citado por BROU\u00c9, 2007).<\/p>\n<p>Dessa forma, portanto, a pol\u00edtica stalinista empreendida pelo PCF levou o partido a puxar o freio das lutas e greves que se desenvolviam. N\u00e3o \u00e0 toa, Albert Sarraut, o primeiro-ministro burgu\u00eas que antecedeu Leon Blum, definiu a Frente Popular como \u201cuma v\u00e1lvula de seguran\u00e7a do regime\u201d contra o movimento de massas. De fato, foi o que se viu na pr\u00e1tica, quando a linha de concilia\u00e7\u00e3o de classes levando ao refluxo do movimento grevista. Nas palavras de Trotsky, \u201cos chefes socialistas e comunistas n\u00e3o s\u00f3 se negam a realizar a mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do proletariado como se op\u00f5em a ela com todas as suas for\u00e7as. Ao mesmo tempo em que confraternizam com a burguesia acossam e expulsam os bolcheviques. Tal \u00e9 a viol\u00eancia do seu \u00f3dio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e do medo que ela lhes inspira!\u201d (TROTSKY, 1936a).<\/p>\n<p>Os stalinistas tentavam justificar seu giro brusco para a concilia\u00e7\u00e3o de classes de todas as formas. Trotsky em seu texto \u201cFran\u00e7a na encruzilhada\u201d, em mar\u00e7o de 1926, em contraponto afirmava \u201c<em>Ainda que seja dif\u00edcil acreditar, alguns c\u00ednicos tratam de justificar a pol\u00edtica da Frente Popular fazendo refer\u00eancia a L\u00eanin que, segundo parece, mostrou que n\u00e3o se pode prescindir de &#8220;compromissos&#8221; e, especialmente, de acordos com outros partidos. Para os atuais chefes da Internacional Comunista, ultrajar Lenin\u00a0se tornou uma regra: espezinham a doutrina do fundador do partido bolchevique e em seguida v\u00e3o prostrar-se diante do seu mausol\u00e9u, em Moscou&#8230; Os senhores falsificadores poderiam indicar em que fase, em que momentos e em que circunst\u00e2ncias o partido bolchevique realizou na R\u00fassia algo semelhante \u00e0 Frente Popular? Que fa\u00e7am trabalhar suas meninges e pesquisem nos documentos hist\u00f3ricos!<\/em><\/p>\n<p><em>Os bolcheviques realizaram acordos pr\u00e1ticos com as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias pequeno-burguesas para o transporte clandestino de publica\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e, algumas vezes, para a organiza\u00e7\u00e3o comum de uma manifesta\u00e7\u00e3o, ou para responder aos grupos de &#8220;pogromistas&#8221;. Quando das elei\u00e7\u00f5es para a Duma, recorreram, em certas circunst\u00e2ncias e no segundo grau, \u00e0 blocos eleitorais com os mencheviques ou com os socialistas revolucion\u00e1rios. Isso \u00e9 tudo. Nem &#8220;programas&#8221; comuns, nem organismos permanentes, nem ren\u00fancia a criticar os aliados circunstanciais. Este tipo de acordos e compromissos epis\u00f3dicos, estritamente limitados a objetivos precisos \u2013 os \u00fanicos que Lenin\u00a0tomava em considera\u00e7\u00e3o \u2013 nada tinham em comum com a Frente Popular, que representa um conglomerado de organiza\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas, uma alian\u00e7a duradoura de classes diferentes ligadas para todo um per\u00edodo \u2013 e que per\u00edodo! \u2013 por uma pol\u00edtica e um programa comum: por uma pol\u00edtica de ostenta\u00e7\u00e3o, de declama\u00e7\u00e3o e de poeira nos olhos. Na primeira prova s\u00e9ria, a Frente Popular vai se romper e todas as suas partes constituintes sair\u00e3o com profundas rachaduras. A pol\u00edtica da Frente Popular \u00e9 uma pol\u00edtica de trai\u00e7\u00e3o. A regra do bolchevismo, no que se referia aos blocos, era a seguinte: Marchar separados, vencer juntos! A regra dos atuais chefes da Internacional Comunista \u00e9: Marchar juntos para ser derrotado separadamente. Que esses senhores se aferrem a Stalin\u00a0e Dimitrov, mas que deixem Lenin em paz<\/em>\u201d. A cita\u00e7\u00e3o \u00e9 longa, mas define muito bem as diferen\u00e7as entre Trotsky e os dirigentes do Partido Comunista e da IC.<\/p>\n<p><strong>A \u201cfrente popular de combate\u201d\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em meio a esse cen\u00e1rio, surgiu uma tend\u00eancia \u00e0 esquerda dentro do SFIO, nomeada Esquerda Revolucion\u00e1ria e liderada por Marceau Pivert. Em alguma medida, essa corrente se posicionava de forma cr\u00edtica \u00e0 Frente Popular e ao governo Blum, ao mesmo tempo em que defendia o avan\u00e7o das lutas oper\u00e1rias. Nesse sentido, Pivert lan\u00e7ou a t\u00e1tica que batizou de \u201cfrente popular de combate\u201d, que \u201cconsistia em conformar uma frente com as bases dos partidos oper\u00e1rios, para pressionar seus dirigentes traidores para uma pol\u00edtica \u2018revolucion\u00e1ria\u2019\u201d (MORENO, 1982). Havia press\u00e3o para que a Esquerda Revolucion\u00e1ria aderisse \u00e0 Frente Popular, de forma que, apesar das cr\u00edticas, esse grupo nunca chegou a romper com o governo Blum, uma vez que isso levaria a um \u201cisolamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s massas\u201d. Nas palavras de Nahuel Moreno, \u201ceste argumento de \u2018n\u00e3o se isolar das massas\u2019 [\u2026] \u00e9 o argumento t\u00edpico usado pelos centristas e inclusive pelos revolucion\u00e1rios que capitulam diante da Frente Popular\u201d (MORENO, 1982).<\/p>\n<p><strong>O caso da Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1930, a situa\u00e7\u00e3o na Espanha tamb\u00e9m se polarizava. Em 1931, com a queda da ditadura de Primo de Rivera, houve a instala\u00e7\u00e3o da Segunda Rep\u00fablica Espanhola, governada por republicanos e socialistas. A instabilidade do regime se acentuava, com tentativas de golpe por parte da direita e radicaliza\u00e7\u00e3o do discurso dos socialistas, em especial da Juventude Socialista.<\/p>\n<p>Em 1934, a mobiliza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria produziu o chamado Outubro espanhol. Uma Alian\u00e7a Oper\u00e1ria entre a Uni\u00e3o Geral de Trabalhadores (UGT), dirigida pelos socialistas, e a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Trabalho (CNT), liderada por anarquistas, realizou uma tentativa de insurrei\u00e7\u00e3o em alguns pontos do pa\u00eds, chegando a combater durante dias na regi\u00e3o das Ast\u00farias, ao Norte. O levante, por\u00e9m, fracassou, resultando na pris\u00e3o de cerca de 30 mil militantes. Na ocasi\u00e3o, o PC stalinista ainda seguia a orienta\u00e7\u00e3o do \u201cterceiro per\u00edodo\u201d, rejeitando a unidade de a\u00e7\u00e3o com a socialdemocracia, considerada \u201cirm\u00e3 g\u00eamea do fascismo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 esse o contexto em que se aproximaram as elei\u00e7\u00f5es de 1936, na qual surge a vers\u00e3o espanhola da Frente Popular. Formada pela alian\u00e7a entre o PC (j\u00e1 guiado pelas orienta\u00e7\u00f5es do VII Congresso da IC), o Partido Socialista Oper\u00e1rio Espanhol (PSOE, socialdemocrata) e setores republicanos burgueses, a Frente Popular vence as elei\u00e7\u00f5es e d\u00e1 origem a um governo composto pelos setores republicanos e apoiado pelos socialistas e comunistas, com um programa bastante moderado. De qualquer forma, a situa\u00e7\u00e3o seguia inst\u00e1vel: as for\u00e7as da direita e da extrema direita, contando inclusive com grupos de inspira\u00e7\u00e3o fascista, se aglutinavam em torno de uma conspira\u00e7\u00e3o golpista; ao mesmo tempo, os trabalhadores se organizavam para garantir o programa da Frente Popular por meio de sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o, mesmo nos pontos mais b\u00e1sicos, como a anistia para os presos de outubro de 1934.<\/p>\n<p>O governo, por sua vez, fechou os olhos para a conspira\u00e7\u00e3o da direita e buscou frear o \u00edmpeto dos trabalhadores. O papel do stalinismo nesse processo, por exemplo, \u00e9 indicado por Pierre Brou\u00e9: \u201cDurante todo esse per\u00edodo, o Partido Comunista fez uma pol\u00edtica resolutamente moderada, para n\u00e3o dizer moderantista, insistindo somente na necessidade de controlar o governo. [\u2026] Em outras palavras, ele come\u00e7a a se engajar claramente contra as greves inspiradas pela CNT e aquelas que t\u00eam um car\u00e1ter que ele julga revolucion\u00e1rio. Ele embrenha-se ao mesmo tempo em furiosos ataques contra \u2018os trotskistas\u2019 em geral\u201d (BROU\u00c9, 2007).<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o do golpe por parte da extrema direita, em julho de 1936, teve in\u00edcio a Guerra Civil Espanhola. A resist\u00eancia dos trabalhadores espanh\u00f3is contra o golpe se desenvolveu por meio da forma\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias armadas e comit\u00eas oper\u00e1rios. Em alguns locais, os comit\u00eas oper\u00e1rios se transformaram em comit\u00eas de governo, com representantes eleitos em assembleia, e tomaram medidas como o controle dos pre\u00e7os e a expropria\u00e7\u00e3o dos bens da Igreja e dos latifundi\u00e1rios. Em outras palavras, estabeleciam-se organismos de duplo poder. A \u00fanica for\u00e7a capaz de se contrapor ao avan\u00e7o da extrema direita era a classe trabalhadora organizada e armada. Por\u00e9m, devido aos seus compromissos com o governo da Frente Popular, os stalinistas, bem como os outros setores da esquerda, como socialistas e anarquistas, boicotaram esses organismos, abrindo o caminho para a ascens\u00e3o do general Franco ao poder.<\/p>\n<p><strong>Uma alian\u00e7a com a \u201csombra da burguesia\u201d\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A trai\u00e7\u00e3o operada pelas dire\u00e7\u00f5es na Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola tem como base a estrat\u00e9gia desenvolvida pelo stalinismo no per\u00edodo. Trotsky definiu a quest\u00e3o da seguinte forma: \u201cDe acordo com as concep\u00e7\u00f5es dos socialistas e dos stalinistas, ou seja, dos mencheviques da primeira e da segunda hora, a revolu\u00e7\u00e3o espanhola n\u00e3o iria resolver mais que tarefas democr\u00e1ticas; esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual era necess\u00e1rio construir uma frente \u00fanica com a \u2018burguesia democr\u00e1tica\u2019. Desse ponto de vista, toda tentativa do proletariado de sair dos canais da democracia burguesa era, n\u00e3o s\u00f3 prematura, mas inclusive funesta\u201d (TROTSKY, 1937). Portanto, foi a concep\u00e7\u00e3o etapista, isto \u00e9, a ideia de que a revolu\u00e7\u00e3o socialista se desenvolveria em etapas, primeiro, democr\u00e1tico burguesa, e, s\u00f3 depois, socialista, o que conduziu as dire\u00e7\u00f5es do movimento de massas a adotarem uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes com setores da burguesia, entendendo que esses seriam aliados na \u201cprimeira etapa da revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Trotsky chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a Frente Popular no caso espanhol, ao contr\u00e1rio de outros exemplos, p\u00f4de se realizar mesmo sem uma presen\u00e7a efetiva da burguesia. Uma vez que a burguesia espanhola compreendeu que a classe trabalhadora mobilizada contra Franco n\u00e3o estacionaria a sua luta com a derrota do fascismo, mas avan\u00e7aria contra a propriedade privada, ela se unificou majoritariamente \u00e0 direita. Por sua vez, a Frente Popular contava apenas com a \u201csombra da burguesia\u201d, representada pela pol\u00edtica levada a cabo pelos stalinistas e socialistas. Na medida em que afirmavam de antem\u00e3o o car\u00e1ter apenas democr\u00e1tico da revolu\u00e7\u00e3o e buscavam uma concilia\u00e7\u00e3o com setores burgueses, freando os trabalhadores dentro dos marcos do regime, essas dire\u00e7\u00f5es, por si s\u00f3, j\u00e1 representavam o car\u00e1ter burgu\u00eas da Frente Popular.<\/p>\n<p><strong>O \u201cflanco esquerdo da Frente Popular\u201d\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m de comunistas\/stalinistas, socialistas\/socialdemocratas e anarquista, havia um outro grupo na esquerda espanhola durante a revolu\u00e7\u00e3o: o Partido Oper\u00e1rio de Unifica\u00e7\u00e3o Marxista (POUM). Formado por \u201ccomunistas de esquerda\u201d e outros grupos dissidentes, o POUM chegou a ter rela\u00e7\u00f5es com os trotskistas, sendo muitas vezes acusado de trotskismo pelo PC. Por\u00e9m, o pr\u00f3prio Trotsky foi muito cr\u00edtico quanto a atua\u00e7\u00e3o desse partido, que acabou capitulando \u00e0 Frente Popular.<\/p>\n<p>Segundo Trotsky, \u201cem vez de mobilizar as massas contra os dirigentes reformistas, inclu\u00eddos os anarquistas, o POUM tentava convencer esses senhores acerca das vantagens do socialismo sobre o capitalismo\u201d (TROTSKY, 1937). Apesar de fazer cr\u00edticas \u00e0 Frente Popular, o POUM buscava pression\u00e1-la a esquerda, evitando um rompimento com as suas dire\u00e7\u00f5es. O resultado foi a sua localiza\u00e7\u00e3o \u00e0 reboque dos stalinistas e socialistas, portanto, \u00e0 reboque da \u201cburguesia democr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Esse car\u00e1ter centrista do POUM, que oscilava entre posi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e reformistas, acabou sendo um obst\u00e1culo para a constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria na Espanha: \u201cisolando a vanguarda revolucion\u00e1ria da classe, o POUM enfraqueceu a vanguarda, deixando as massas sem dire\u00e7\u00e3o\u201d (TROTSKY, 1937).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Algumas li\u00e7\u00f5es\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Os dois exemplos analisados acima nos permitem perceber os impactos da linha stalinista de frente popular em duas situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Em ambos os casos, o resultado foi desastroso para a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo em que a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes adotada pelo stalinismo (no que tiveram o aux\u00edlio da socialdemocracia e de outras correntes reformistas) levou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de governos em comum com a burguesia, a sua contrapartida foi a sabotagem das mobiliza\u00e7\u00f5es independentes do proletariado. A burocracia stalinista e seus aliados em cada pa\u00eds se esfor\u00e7aram para manter o movimento de massas dentro dos marcos do regime burgu\u00eas. Dessa forma, situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias que estavam abertas, como nos casos da Fran\u00e7a e da Espanha, foram desperdi\u00e7adas pelo fato de n\u00e3o haver uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u00e0 frente da classe trabalhadora. O stalinismo atuou de forma contrarrevolucion\u00e1ria, fazendo retroceder a revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial, o que nos deixa uma li\u00e7\u00e3o que segue viva at\u00e9 os dias de hoje: \u00e9 preciso construir dire\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, para que oportunidades como essas n\u00e3o sejam novamente perdidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>Pierre Brou\u00e9.\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Internacional Comunista<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Sundermann, 2007.<\/p>\n<p>Nahuel Moreno.\u00a0<em>La traici\u00f3n de la\u00a0<\/em>OCI. 1982. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nahuelmoreno.org\/escritos\/la-traicion-de-la-oci-1982.pdf\">http:\/\/www.nahuelmoreno.org\/escritos\/la-traicion-de-la-oci-1982.pdf<\/a><\/p>\n<p>Leon Trotsky.\u00a0<em>Aonde vai a Fran\u00e7a?.<\/em>\u00a01934. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1934\/franca\/index.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1934\/franca\/index.htm<\/a><\/p>\n<p>_____.\u00a0<em>A trai\u00e7\u00e3o do \u201cPartido Oper\u00e1rio de Unifica\u00e7\u00e3o Marxista\u201d espanhol<\/em>. 1936a. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1936\/01\/22.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1936\/01\/22.htm<\/a><\/p>\n<p>_____. A Fran\u00e7a na encruzilhada. 1936b. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1936\/03\/28.htm\">https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1936\/03\/28.htm<\/a><\/p>\n<p>_____.\u00a0<em>Lecci\u00f3n de Espa\u00f1a; \u00faltima advert\u00eancia<\/em>. 1937. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/ceip.org.ar\/Leccion-de-Espana-ultima-advertencia\">https:\/\/ceip.org.ar\/Leccion-de-Espana-ultima-advertencia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Henrique Lignani, CST Rio de Janeiro No presente texto, vamos abordar algumas das consequ\u00eancias pr\u00e1ticas da pol\u00edtica imposta pela IC, por Stalin e por Dimitrov ap\u00f3s 1935, ou seja, situa\u00e7\u00f5es concretas em que os Partidos Comunistas atuaram como um bra\u00e7o da burguesia na sustenta\u00e7\u00e3o do<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9795,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-9794","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9794"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9794\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}