Entrevista com Edmilson Costa, candidato à presidência da República.

1.Qual o papel da esquerda socialista e comunista na atual conjuntura?

Nós estamos vivendo uma conjuntura complexa e extremamente desafiadora para as forças populares em função da nova doutrina imperialista e sua agressividade contra os povos, a grave crise social brasileira, um governo de conciliação de classes que governa essencialmente para o capital, uma extrema-direita que representa os interesses do imperialismo e tem grande base social no País, além de um movimento sindical e popular dirigido pelas forças da conciliação de classe e que não representam nada para a luta social.

No plano internacional, o sistema imperialista em declínio vive uma fase de grande agressividade marcada pela tentativa de resgatar a hegemonia, pela militarização das relações internacionais, pela intensificação das sanções contra países que não aceitam os ditames imperiais e pela tentativa de recolonização dos elos débeis da cadeia imperialista, especialmente na América Latina. Os ataques contra a Venezuela e o sequestro de seu presidente, o genocídio contra os palestinos e atualmente os ataques contra o Irã, em aliança com os sionistas de Israel, representam a face mais agressiva da ofensiva imperialista,

Diante de uma situação dessa ordem, é fundamental que a esquerda socialista e comunista busque construir uma alternativa que envolva: a) unidade de ação nas pautas contra o imperialismo e na solidariedade a todos os povos em luta contra o império; b) combate sem trégua a extrema-direita no País e seu projeto autoritário, cuja expressão política é o bolsonarismo e seu desejo de voltar a ganhar as eleições no Brasil; c) combater à política de conciliação de classe e todas as medidas antipopulares do governo Lula, especialmente a política neoliberal que atinge especialmente os trabalhadores, a juventude e a população pobre do País; d) defesa da pauta dos trabalhadores, levando em conta que nenhuma resistência poderá se tornar vitoriosa se não atender aos interesses das massas exploradas de nosso País.

2.Qual sua visão sobre os 3 anos do governo da frente ampla de Lula/Alckmin?

O governo Lula, ao contrário do que prometeu no período eleitoral, que era colocar os ricos no imposto de renda e os pobres no orçamento, vem realizando uma política tipicamente social-liberal. Concentram-se na manutenção de pilares estruturais herdados do neoliberalismo: em primeiro lugar, destaca-se a preservação do chamado tripé macroeconômico (metas de inflação rígidas, superávit fiscal e câmbio flutuante), que que coloca a economia na armadilha de taxas de crescimento medíocres e limita a capacidade do Estado de utilizar o gasto público e a política monetária a favor das classes populares; em segundo lugar, mantém a autonomia do Banco Central, cuja política implementa taxas de juros obscenas, que é um dos principais gargalos da economia brasileira e um assalto ao fundo público, pois transfere grande volume de recursos do orçamento para o sistema financeiro e os especuladores em geral por meio do pagamento dos juros da dívida pública.

Além disso, realiza uma política fiscal restritiva, mediante o arcabouço fiscal, materializada em novos mecanismos de controle de gastos, que reduz o espaço para investimentos públicos em infraestrutura, ciência, tecnologia e políticas sociais para a população e subordina as políticas sociais aos interesses do capital financeiro. No campo, observa-se a continuidade da hegemonia do agronegócio, com baixa prioridade para a reforma agrária e a agricultura familiar. Enquanto implementa a política de favorecer ao grande capital, realiza uma política de compensação social como vitrine para justificar o social-liberalismo. Para se ter uma ideia, enquanto nos últimos 12 meses terminados em janeiro o governo pagou cerca de US$ um trilhão de juros, gastou apenas 160 bilhões com o Bolsa família.

Em outras palavras, embora Lula tenha derrotado eleitoralmente o bolsonarismo, o governo implementa uma política dentro dos limites do capital financeiro nacional e internacional, dos grandes grupos econômicos e do agronegócio. Enquanto isso, o País vive uma grave crise social: com mais de 38 milhões de trabalhadores na informalidade, uma economia de baixos salários, precárias condições de vida da população nas periferias, uma saúde sucateada, um caos no transporte público e dezenas de milhares de pessoas na pobreza. Por isso, é fundamental que os socialistas e comunistas se apresentem nessas eleições com um programa de transformações sociais e que enfrente os interesses da burguesia, do agronegócio e do imperialismo.

3.Como combater a extrema direita? 

A extrema-direita representa um enorme perigo para as forças populares e democráticas no Brasil. Nós vimos do que são capazes durante os quatro anos de governo do genocida Jair Bolsonaro, quando radicalizou as políticas antipopulares, destruiu os direitos sociais, atacou e mentiu em relação às instituições que buscavam colocar um freio em suas ambições e disseminou a política de ódio e submissão aberta aos interesses do imperialismo. A condução criminosa do governo na pandemia, que resultou em centenas de milhares de mortes evitáveis, foi uma das expressões mais trágicas e desumanas da gestão bolsonarista. Bolsonaro e seus aliados buscaram permanentemente desestabilizar o País e preparar as condições para um golpe de Estado, processo que se expressou claramente na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Mas o bolsonarismo não é apenas um fenômeno conjuntural ou eleitoral: expressa a radicalização de setores da extrema-direita internacional e dos interesses de várias frações da burguesia e do agronegócio no Brasil, além de camadas conservadoras da sociedade brasileira diante da crise econômica e social. Além disso, o bolsonarismo representa a quinta coluna dos interesses imperialistas, pois defende abertamente todas as políticas imperialistas no interior do País. Isso é tão descarado que o próprio Jair Bolsonaro bate sem cerimônia continência para a bandeira dos Estados Unidos e nas manifestações de rua bolsonaristas estendem nas ruas gigantescas bandeiras norte-americanas.

Por isso, o combate ao bolsonarismo não pode se limitar apenas ao terreno institucional ou eleitoral. Combater nessas áreas é importante, mas é imprescindível desenvolver uma luta social e política de massas, a partir da base, capaz de disputar os setores populares que foram capturados pela narrativa da extrema-direita e envolver e mobilizar os trabalhadores, a juventude, os movimentos sociais e populares e setores democráticos e progressistas para enfrentar nas ruas, nos locais de trabalho e moradia o projeto autoritário da extrema-direita. Nessa perspectiva, as forças socialistas e comunistas tem um papel fundamental nesse processo: construir unidade de ação, buscando desmascarar o caráter antipopular e antidemocrático das forças bolsonarista e seu estreito vínculo com o imperialismo. Nessa conjuntura, o PCB e sua militância se comprometem a realizar todos os esforços para que a luta contra a extrema direita, que tem uma imensa base política e social no País, ganhe um caráter de massa e possa derrotar de maneira duradora o projeto autoritário.

4.Qual sua visão sobre uma frente eleitoral da esquerda independente, dos partidos e organizações que não estão na frente ampla?

O PCB acredita que o primeiro turno das eleições no Brasil é o momento ideal para que as forças socialistas e comunistas lancem suas candidaturas e apresentem suas propostas para o País. Trata-se de uma oportunidade extraordinária, apesar de suas limitações, para que a classe trabalhadora, a juventude e a população em geral conheçam as propostas que não estão subordinadas aos interesses do capital ou às alianças com a burguesia. Não podemos esquecer também que essa disputa ocorre em condições profundamente desiguais: as candidaturas da burguesia e da conciliação de classes dispõem de enormes recursos econômicos, praticamente todo o tempo de televisão e apoio declarado nos outros meios de comunicação.

Nessas eleições, a candidatura do PCB veio para colocar no debate uma série de questões que as candidaturas da burguesia e da conciliação de classes não têm condições ou não podem colocar em função de suas alianças políticas. Nós iremos combater efetivamente a política imperialista, tanto no exterior quanto no Brasil, e manifestar nossa solidariedade militante à Cuba, Palestina, Venezuela, Irã e todos os povos em luta contra o imperialismo. Ao lado disso, combateremos a política de conciliação de classe do governo Lula, as contrareformas, e defenderemos a pauta dos trabalhadores, levando em conta que nenhuma resistência pode ganhar corações e mentes se não atender aos interesses do proletariado, da juventude e da população brasileira.

Essa pauta programática deve ser encaminhada a partir de uma alternativa política que coloque os interesses dos trabalhadores acima das metas fiscais, que rompa com o pacto das elites, com a política neoliberal, a reprimarização da economia e o rentismo institucionalizado. Uma política que crie a Lei de Responsabilidade Social, para garantir recursos às políticas públicas e reduza a jornada de trabalho para 30 horas sem redução de salário e que acabe com a escala 6×1; que estatize os setores estratégicos da economia e os meios de produção necessários à vida, garanta direitos sociais e enfrente a desigualdade estrutural da sociedade brasileira e coloque os recursos naturais do País a serviço de seu desenvolvimento. Mais que uma disputa eleitoral, essa campanha deve contribuir para a construção de um novo horizonte, um novo rumo para o País baseado na organização popular e na perspectiva do poder popular e do socialismo.

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