Entrevista com Gabriel Lazzari

Entrevista com Gabriel Lazzari, formado em Letras pela USP, delegado sindical de base do Sindicato dos Bancários de São Paulo e Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário.

 

1- Qual o papel da esquerda socialista e comunista na atual conjuntura?

Na nossa avaliação, há dois papeis que temos que levar em consideração, que são complementares. O primeiro papel é pensando no longo prazo, não apenas na atual conjuntura. Não entendemos que há qualquer saída que possa beneficiar a classe trabalhadora que não seja a saída revolucionária para o Brasil e a construção do socialismo. O papel dos comunistas é central em desenvolvermos, no curso das lutas, uma Frente Anticapitalista e Anti-Imperialista que possa dar consequência a esse projeto. Mas, particularmente na atual conjuntura, creio que temos um papel um pouco “ingrato”, que é o papel de combater, praticamente sozinhos, todas as expressões dos partidos “da ordem”, ou seja, daqueles que querem gerir o capitalismo: tanto as expressões diretas da burguesia, que conhecemos como a direita e a extrema-direita, quanto as expressões da política da burguesia no seio da nossa classe, que são a social-democracia e o social-liberalismo. Hoje, isso significa conseguir desenvolver uma política com independência de classe que possa demonstrar, a todo momento, qual é o caráter de classe dos governos, como eles ajudam a manter oprimidos e explorados a nós trabalhadores. Isso não é uma tarefa simples: vivemos um momento de grande refluxo do movimento. Havia uma grande expectativa de setores dos trabalhadores com o governo Lula-Alckmin, uma grande ilusão – um pouco justificada, é verdade, pela recusa ao bolsonarismo – que não está se cumprindo. E se não houver um setor revolucionário da esquerda se diferenciando e representando uma alternativa a essa falsa polarização, não sairemos nunca dessa alternância entre “pior” e “menos-pior”. Entendemos que a esquerda revolucionária é a única que pode apresentar um “melhor” hoje, que é a resistência aos ataques de patrões e governos, para construir uma ofensiva dos trabalhadores.

 

2- Qual sua visão sobre os 3 anos do governo da frente ampla de Lula/Alckmin?

Nossa visão é bastante negativa sobre o governo Lula-Alckmin. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que nunca os trabalhadores podem confiar em qualquer governo no capitalismo. Para nós, o problema não é apenas que o governo seja de Frente Ampla. Se fosse um governo no capitalismo apenas com PT, PSOL, PCdoB, seria também um governo a que nos oporíamos – não é papel dos comunistas apoiar nenhum governo burguês. Mas, em segundo lugar, precisamos entender que, concretamente, nem sequer as promessas de reformas feitas pelo próprio governo estão sendo implementadas. Lula se elegeu falando contra o Teto de Gastos do Temer, e logo na sequência aprovou seu próprio, o Novo Arcabouço Fiscal; se elegeu falando contra a política de juros do BC, e seu apontado Gabriel Galípolo defendeu a mesma política BC; se elegeu falando contra Reforma Trabalhista e da Previdência, e agora a ministra Esther Dweck tem trabalhado junto com o GT da Reforma; se elegeu falando em proteção aos mais pobres, e tentou atacar o BPC do INSS. A avaliação que fazemos desses 3 anos é a mesma que fizemos ainda em 2021, apontando o prognóstico de um possível novo governo Lula – de que ele não faria senão um novo momento de pacificação da classe trabalhadora, com a cooptação dos movimentos sociais, mas sem qualquer diferença significativa em termos de política econômica para aquilo que costuma se chamar “consenso neoliberal”.

 

3- Como combater a extrema direita? Devemos lutar para colocar Bolsonaro e generais na cadeia?

Sem dúvida, colocar Bolsonaro e seus generais na cadeia será um passo importante, ainda que mais simbólico do que efetivo. Mas, para verdadeiramente combatermos a extrema-direita, o que precisamos é de um forte movimento operário, com independência de classe, que possa aprender, por meio do combate na luta de classes, a lutar pelo seu próprio poder, pelo socialismo. Falamos isso sem qualquer doutrinarismo, mas entendendo que não há como lutar contra a extrema-direita sem colocar o problema do próprio capitalismo em xeque. As contradições do capitalismo e as necessidades da burguesia vão sempre buscar uma alternância entre medidas mais coercitivas e medidas mais pacíficas de manter a exploração dos trabalhadores. Costumo citar o poeta comunista alemão Bertolt Brecht, que afirmava que “fascismo apenas pode ser combatido como capitalismo, como a forma de capitalismo mais nua, sem vergonha, mais opressiva e mais traiçoeira”. Combater a extrema-direita defendendo a democracia é justamente o que ela quer, porque é nos momentos de crise que a farsa da democracia burguesa fica ainda menos atrativa para os trabalhadores. Bem concretamente, para dar um exemplo: não podemos esquecer que a burguesia do agro é hoje uma das mais cruéis e exploradoras, com acusações frequentes de assassinato de camponeses, indígenas e ribeirinhos, além de usar trabalho em situação análoga à escravidão. E como o atual governo se posiciona? Dando 500 bilhões de reais em subsídio para o Plano Safra de 2025. Isso não é combater o fascismo, é alimentá-lo, financiá-lo. O mesmo pode ser dito da postura do governo frente ao sionismo israelense: Lula faz bravata contra o governo de Israel, mas segue mantendo as relações diplomáticas, comerciais e militares. Isso não é combater a extrema-direita. É apoiá-la.

 

4- Qual sua visão sobre um bloco ou campo da esquerda independente, que não está na frente ampla?

Eu evito falar em esquerda “independente” puramente. Há forças menores da social-democracia que hoje são independentes ao governo. Acho mais significativo falarmos em esquerda revolucionária. Fizemos algumas tentativas para consolidar um bloco nesse sentido, ainda em 2023, como um bloco de oposição de esquerda ao governo Lula-Alckmin, que é a posição que definimos ainda em 2021. Infelizmente, mesmo depois de algumas reuniões, esse bloco não se consolidou. Existe ainda desconfianças entre forças políticas, um certo senso de autoconstrução sectário, que nós mesmos como Partido cultivamos, e que precisamos corrigir, nós e todos da esquerda revolucionária, se quisermos de fato consolidar um bloco como esse. Em algumas experiências de luta, no entanto, isso foi possível: dou destaque para a luta pelo fim da escala 6×1, que é sem dúvida a principal luta operária em curso hoje no país. O primeiro semestre de 2025 foi marcado por ela e pela proeminência desse bloco, que conseguiu puxar mobilizações e dias de luta, ora em unidade com o próprio campo governista, ora de forma independente. Acho que é uma experiência que todos devemos usar como exemplo.

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