Das vielas do Canindé para a Marquês de Sapucaí
Por Celso Cabral e Eziel Duarte
Da literatura brasileira para a avenida do carnaval, a escola de samba Unidos da Tijuca irá homenagear a escritora Carolina Maria de Jesus no Carnaval de 2026. A partir do destaque de seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960, a obra narra sua história de vida, de luta contra a fome e o sonho de mudar sua realidade, apresentando fortes críticas sociais. Carolina Maria de Jesus é uma das principais escritoras negras do nosso país, com destaque para o livro já mencionado, no qual relata seu cotidiano como catadora de papel, mãe solo e mulher preta, na favela do Canindé, em São Paulo.
Assim como Carolina Maria de Jesus, as mulheres negras do Brasil estão entre os dados sociais mais precários do país. Na letra do samba, ao ser apresentada a frase “dele (Jesus) herdei também a cruz”, essa “cruz” do sacrifício é fruto de um histórico racista e machista do nosso país, que se expressava na década de 1960 e que persiste até hoje. Segundo estudos publicados pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), cerca de 68% a 69% dos feminicídios e homicídios intencionais de mulheres envolvem mulheres negras — um percentual desproporcional à sua participação na população. Ainda hoje, os lares chefiados por mulheres enfrentam uma situação de vulnerabilidade econômica, sendo 70% deles chefiados por mulheres negras.
Em seu livro, a autora conta como sobreviveu à miséria que assolou grande parte de sua vida, como lidou com a fome, o racismo e o machismo. Carolina Maria de Jesus, em sua narrativa, revela um Brasil desigual, onde existem fome, subempregos e miséria. “Quem inventou a fome são os que comem” (Quarto de Despejo). A fome — um problema do passado — atinge o nosso presente, em que cerca de 6,5 milhões de pessoas vivem em situação de fome (dados do IBGE), principalmente pessoas negras.
A Unidos da Tijuca parece preparar uma grande crítica social que, se seguir o teor das denúncias de Carolina — que expôs políticos e o poder público como responsáveis pela situação de pobreza e descaso com o povo trabalhador —, será feita em alto tom.
“Político quando candidato
Promete que dá aumento
E o povo vê que de fato
Aumenta o seu sofrimento”
(Quarto de Despejo)
Esses elementos são destacados no samba, tendo como contexto a forte industrialização de São Paulo e o avanço da urbanização da cidade, que fez com que moradores da favela do Canindé fossem expulsos de seus barracos para a construção da Marginal do rio Tietê. Por vezes, em sua escrita, os “erros ortográficos” não pouparam as críticas aos políticos: são citados o ex-prefeito Faria Lima, Getúlio Vargas — como alguém que não acabou com a miséria — e Jânio Quadros, mencionado como alguém que fazia discursos moralistas, entre outros. O samba ecoa da seguinte forma:
“Dos salões da burguesia aos barracos do Borel
Onde nascem Carolinas, não seremos mais os réus
Por tantas Marias que viram seus filhos crucificados”
Acreditamos que a Unidos da Tijuca fará um lindíssimo desfile com esse enredo potente, que será uma grande aula na avenida e uma belíssima homenagem a Carolina Maria de Jesus. Que esse enredo inspire outras Carolinas pelo país. A agremiação será a segunda a desfilar no dia 16 de fevereiro, na Marquês de Sapucaí.
“Muda essa história, Tijuca!
Tira do meu verso a força pra vencer
Reconhece o seu lugar e luta
Esse é o nosso jeito de escrever”
(Trecho do samba-enredo — Unidos da Tijuca 2026)
Assista ao clipe oficial
