Carta aberta as forças da esquerda do PSOL: Precisamos de um bloco ou frente das esquerdas socialistas e comunistas
O PSOL deixou de ser um partido independente. Ao se somar à frente ampla com a patronal; indicar ministros no governo capitalista de Lula/Alckmin; e compor sua base aliada no Congresso Nacional, o espaço para posições classistas no PSOL chegou ao fim.
Esse espaço existia na fundação do PSOL, que foi correta. O partido surgiu como uma ferramenta política à esquerda do governo Lula. Vinte anos depois, ao se somar ao campo capitalista de Lula/Alckmin, a independência acabou.
Na visão da CST, organização socialista revolucionária independente, não há mais espaço para posições classistas no PSOL. Isso nos fez romper com o PSOL e não lançar candidaturas por sua legenda. Por isso, debater uma reorganização é importante, apesar das dificuldades de construir uma nova e verdadeira esquerda. È preciso apoiar lutas, como as greves da educação, protestos feministas, jornadas pelo fim da 6×1 e construir uma alternativa de esquerda, sem patrões.
O custo político de ser da frente ampla é alto
A força do lulismo é real. Nessas eleições, o Lulismo terá muitos votos, o que dificulta uma reorganização. O PSOL seguirá elegendo parlamentares, com grande aparato, mantendo-se como partido eleitoral. Isso atrasa reflexões sobre os rumos do PSOL. Entendemos que forças do partido argumentem nesses termos. Mas, fraternalmente, discordamos.
Não deveríamos nos confundir com o peso eleitoral da colaboração de classes. Eleger um mandato é importante e pode ser um ponto de apoio para as lutas, mas não quando se torna um fim em si mesmo, como faz a direção majoritária do PSOL. Nem quando significa rebaixar programas por espaços pragmáticos, como fez Freixo, que terminou fora do PSOL e no segundo escalão de Brasília. É um erro se deixar engolfar pelo lulismo e render-se à lógica institucional, como faz Boulos.
Nós da CST já tivemos mandato parlamentar, com nosso camarada Babá, e sabemos sua importância, mas jamais rebaixamos nosso programa para nos manter no parlamento.
O custo de permanecer no PSOL é atuar como satélite de Lula e da política de centro-direita do PT, baseada em alianças com inimigos de classe. Algo semelhante ao antigo PCB, a reboque da chamada burguesia “nacionalista” ou democrática, cujo exemplo clássico foi a defesa do MDB e da frente ampla contra a fundação do PT.
Integrar a frente ampla não é um tema tático menor. É algo profundo, que vai contra princípios básicos da classe operária e da esquerda socialista.
Nos últimos anos, o lulismo tem tragado forças de esquerda para projetos de colaboração de classes ou blocos com a burocracia sindical e estudantil. Isso aparece na situação das antigas forças de oposição da APEOESP, hoje integradas às chapas da Articulação/PT, num sindicato que até agora se negou a fazer greves unificadas contra Tarcísio. Ou na adesão da maioria do PSOL à chapa da UJS e JPT na UNE, cuja maioria da direção se distancia da mobilização estudantil, vide o apoio apenas protocolar à ocupação da USP. Isso bloqueia a construção de uma nova direção democrática e combativa para o movimento operário e popular.
Como estão as forças de esquerda do PSOL?
As maiores forças da esquerda do PSOL (como os camaradas do MES e Fortalecer) não tiveram posição por uma candidatura própria, o que era tradição desse campo político. A última foi ao redor de Glauber, durante o governo Bolsonaro, agrupando 40% do PSOL.
A maioria da esquerda defende a coligação com o PT, o apoio à reeleição de Lula e a frente ampla. Isso significa respaldar, com críticas, a coligação com os partidos liderados por Lula e Alckmin, o que inclui lideranças como Tebet, partidos da direita e setores reacionários, como Múcio, Fávaro e o centrão.
Outro problema, que revela adaptação ao meio da frente ampla, é que não defendem a saída dos ministérios no governo federal, da base aliada no Congresso e dos cargos estaduais nos governos da frente ampla. Algo que seria básico.
O PSOL, engolfado na frente ampla Lulista e na política institucional, comete erros imensos como o voto do PSOL em Bacelar na ALERJ, em troca de espaço nas comissões. Em outros locais, onde a esquerda do PSOL é majoritária, se nega a apresentar uma alternativa a campo da colaboração de classes: como a campanha para o PDT no RS no primeiro turno. O fato de o apoio ser “crítico” não anula que o PSOL se soma a campanha de um partido burguês no Sul do País.
A frente ampla não combate de verdade a extrema direita
As esquerdas socialistas e comunistas cedem ao Lulismo argumentado o perigo real da extrema direita. A CST concorda com a necessidade esmagar nas ruas a extrema direita. Defendemos uma ampla unidade de ação contra Trump, Bolsonaro, Tarcísio, Zema, os machistas e os nazi-sionistas. Mas o fato é que o lulismo não é uma barreira de contenção profunda contra a extrema direita. A composição da frente ampla com setores ultrarreacionários, como José Múcio; com o ruralista Fávaro; os pactos de governabilidade com o centrão e governadores da extrema direita, como Tarcísio de Freitas, significam colaborar com a cúpula militar golpista e aprovar projetos privatistas e autoritários da extrema direita. Infelizmente, Lula não revogou as contrarreformas da Previdência e trabalhista, o Novo Ensino Médio, nem a privatização da Eletrobras realizada no governo Bolsonaro.
A frente ampla não combate a política de Trump e busca, a todo momento, negociar o inegociável com a extrema direita imperialista. Lula, não rompeu com o enclave nazista de Israel. Uma medida mínima e democrática.
O governo Lula aplica austeridade, cortes de verbas sociais, aprofundamento da catástrofe ambiental e não atende aos grevistas da FASUBRA. E nos sindicatos e não unifica as lutas contra os governadores da extrema direita.
Tudo isso prepara retrocessos e derrotas para a classe trabalhadora. A política de colaboração com nossos inimigos de classe abre o caminho para o fortalecimento eleitoral do bolsonarismo e/ou dos bandeirantes sanguinários do governo de São Paulo. Por isso, é importante ter uma política de construção da esquerda independente.
Por um bloco ou frente da esquerda independente
Em nosso entendimento, uma esquerda independente recuperaria o espírito radical da fundação do PSOL, em 2003. O que significa não apoiar o governo capitalista Lula, nem alianças com partidos da direita, patronais ou com representantes dos patrões nas eleições de 2026.
Apesar de nossas diferenças em relação às forças que seguem no PSOL, estamos à disposição para atuar em comum com os camaradas. Propomos construir ações conjuntas com essas forças do PSOL, visando uma esquerda independente. Trabalhar em conjunto enquanto debatemos, democraticamente e com fraternidade, divergências, sem que esse debate paralise ações unificadas.
A CST avalia que é possível uma atuação conjunta através da luta de classes. Nossa proposta é construir blocos combativos contra as políticas capitalistas do governo Lula/Alckmin e fortalecer a luta nas ruas contra a extrema direita, apoiando as greves da USP, educação municipal de SP e da FASUBRA, dentre outras lutas, com a batalha pela criminalização da misoginia, pelo fim da 6×1 e em defesa do rio Xingu.
A CST propõe um debate sobre a construção de um espaço à esquerda que seja unitário, superando a fragmentação atual. Para isso, sugerimos uma reunião entre as direções do MES, Rebelião Ecossocialista, Fortalecer, APS e LSR, RS, juntamente com forças que não são do PSOL e querem atuar visando uma esquerda independente unitária.
Cara própria nas eleições de 2026
Outro tema que apresentamos para o debate é sobre as eleições de 2026. Em nosso entendimento, a defesa da independência passa por não apoiar a chapa de colaboração de classes de Lula/Alckmin. Poderíamos construir um bloco da esquerda independente, sem patrões. Atualmente temos três pré-candidaturas à esquerda da frente ampla: dos camaradas da UP, outra dos camaradas do PSTU e outra de camaradas do PCB. E essa dispersão é um equívoco. Temos de buscar a unidade.
Sabemos que os camaradas da esquerda do PSOL não têm a linha de romper com o PSOL. Mas uma coisa é não romper com o PSOL, e outra é aderir novamente às chapas da frente ampla em 2026. A CST, mesmo quando integrava o PSOL, desacatou a linha majoritária do partido: não apoiamos nem fizemos campanha para a chapa Lula/Alckmin em 2022.
Os camaradas do MES, Rebelião Ecossocialista, APS, LSR, Revolução Socialista, Fortalecer o PSOL e o mandato do deputado Glauber Braga têm uma forte responsabilidade. Uma movimentação pela esquerda ajudaria a construir um espaço unitário na luta de classes e a reorganizar uma esquerda independente e agrupar as pré-candidaturas à esquerda da frente ampla. Há figuras com muita influência, presença ativa nas fortes lutas feministas ou estudantis, como a deputada Sâmia, que poderiam liderar essa luta com muito impacto. O aparecimento de uma esquerda radical no PSOL poderia reagrupar amplos setores da esquerda.
A tarefa que se impõe é a reorganização independente da classe trabalhadora
Defendemos aproximar as forças que não integram nem apoiam o governo Lula/Alckmin, reorganizando a esquerda socialista e comunista de forma independente. Uma esquerda radical e sem patrões. Algo que seria um fato novo e poderia ajudar a batalha por uma única frente da esquerda independente, batalhando para unir UP, PSTU e PCB numa única chapa para as eleições 2026. E construir uma unidade com os setores da esquerda do PSOL que não estejam com a frente ampla de Lula/ALckmin.
A CST é uma organização socialista e revolucionária independente. Estrategicamente, defendemos a unidade dos revolucionários e revolucionárias. Lutamos por um governo da classe trabalhadora, sem patrões, e por um Brasil socialista. Por uma efetiva unidade anti-imperialista latino-americana contra Trump, rumo a uma Federação das Repúblicas Socialistas da América Latina.
