AOS 100 ANOS DA OPOSIÇÃO UNIFICADA NA EX-URSS (1926-2026): a luta contra a burocracia stalinista
Por: João Santiago, da direção da CST no Pará
Em julho de 1926, durante uma Sessão Plenária do Comitê Central do Partido Comunista da URSS, é lido pela primeira vez a “Declaração dos Treze”, por Leon Trotsky¹ , onde se reconhecia a burocratização do Estado e do Partido, e o crescimento
dos perigos internos, como o fortalecimento dos elementos pró-capitalistas, como os kulaks e os nepmans². A Declaração foi assinada por treze dirigentes do Comitê Central e da velha guarda bolchevique, principalmente Zinoviev, Kamenev, Krupskaya (viúva de Lênin), e Trotsky, que dirigiram a Revolução de Outubro ao lado de Lênin.
Ao longo desta edição do Combate Socialista discutiremos que situações objetivas, tanto históricas como políticas, possibilitaram a ascensão de Stálin e da Burocracia no comando do primeiro estado operário da História e o surgimento da Oposição Unificada nos anos de 1926-1927. Nesta edição trataremos dos antecedentes histórico-políticos que estão na origem do surgimento da Oposição.
PARTE I: Antecedentes Histórico-políticos na origem da Oposição Unificada.
Fim da guerra civil (1918-1921): fome, miséria e esvaziamento das cidades.
Três anos de guerra interimperialista e mais de três anos de guerra civil, na qual os
bolcheviques foram vitoriosos, deixaram a Rússia em uma situação insustentável, à
beira do colapso e colocando em xeque a Revolução de Outubro. A indústria fabrica
apenas 20% do que fabricava antes da guerra e gera apenas 13% de valor; a maquinaria está praticamente destruída, 60% das locomotivas estão fora de uso. No campo, a situação é mais estarrecedora. A superfície cultivada caiu em 16%. As trocas entre as cidades e o campo foram reduzidas ao mínimo, dando lugar às requisições e aos saques³ .
A fome levou ao esvaziamento das cidades, milhões migraram para o campo. Petrogrado perdeu 57,5% de sua população e Moscou 44,5%. Dos 3 milhões de operários que existiam em 1919, a base da revolução de outubro, registram-se apenas
1,2 milhões em 1921; sem contar que cerca de 2 milhões ou mais morreram combatendo na guerra civil. “A seca desencandeia uma fome que espalha o tifo e deixa quase 4 milhões de mortos” ⁴.
A NEP, a crise de abastecimento e os “kulaks”
Diante desta situação objetiva O Partido Bolchevique adota em seu X Congresso,
realizado no início de março de 1921, a Nova Política Econômica (NEP). “A NEP se
caracteriza pela supressão das requisições de grãos – substituídas por um imposto
progressivo em espécie -, pelo restabelecimento da liberdade de comércio e o reaparecimento de um mercado, pela volta da economia monetária, pela tolerância à
pequena e média indústria privada e pelo chamado, sob o controle estatal, a investimentos estrangeiros”⁵ . Lênin argumenta no X Congresso que a NEP se impõe também por conta do fracasso da revolução europeia, principalmente a revolução alemã de 1921, que deixou a Rússia isolada no plano internacional.
Entretanto, a adoção da NEP trouxe os perigos da restauração capitalista por conta da
liberação de forças sociais que estavam suprimidas desde a Revolução: os Kulaks (camponeses ricos), a nova burguesia formada pelos nepmans (comerciantes, pequenos empreendedores e especuladores) e os especialistas e técnicos burgueses empregados na indústria.
De fato, os verdadeiros beneficiados com a NEP e pelo ressurgimento do mercado são
os kulaks e agricultores acomodados (que representam 3% do povo no campo), que
possuem metade das terras cultivadas e 60% das máquinas e são os únicos que se
beneficiam da venda dos excedentes de suas colheitas. Cerca de 2% dos kulaks mais
ricos produzem 60% das mercadorias que circulam no mercado. Segundo Broué “os
kulaks possuem 75% dos 7,7 milhões de hectares de terras, que acabam sendo arrendadas ilegalmente aos camponeses pobres ou médios; eles também são os patrões de 3,5 milhões de assalariados agrícolas e de 1,6 milhões de trabalhadores avulsos, que recebem salários inferiores em quase 40% aos pagos antes da guerra pelos grandes proprietários”⁶. Aprofundavam-se as diferenças entre kulaks e os pequenos e médios camponeses.
Essa política era defendida por um dos principais teóricos do partido Bolchevique, Bukhárin, que havia lançado a palavra-de-ordem: “Camponeses, enriquecei-vos”⁷ e tinha o apoio de Stálin, os dois lideravam a ala direita do partido.
Na próxima edição do Combate Socialista teremos a II Parte, com O surgimento e a Plataforma da Oposição Unificada entre Trotsky e o Bloco Kamenez-Zinoviev em julho de 2026.
¹ Isaac Deutscher. Trotski: O profeta desarmado, 1921-1929. 2ª edição. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1984, pág. 296.
² Pierre Broué. O Partido Bolchevique. São Paulo: Editora Sunderman, Pág. 232.
³ Pierre Broué. O Partido Bolchevique. pág. 143.
⁴ Jean-Jacques Marie. História da guerra Civil Russa: 1917-1922; pág. 243.
⁵ Pierre Broué. O Partido Bolchevique. pp. 151-152.
⁶ Pierre Broué. O Partido Bolchevique. pág. 203.
⁷ Isaac Deutscher. Trotski: O profeta desarmado, 1921-1929, pp. 252-253.
