Síria: não ao aumento do preço dos combustíveis! A riqueza pertence ao povo!
Por Movimento pela Liberdade e a Dignidade
15/09/2026. Compartilhamos a declaração política do Movimento pela Liberdade e a Dignidade da Síria em apoio às recentes e enormes mobilizações contra a decisão do governo de aumentar o preço dos combustíveis em 40%.
Os novos preços dos combustíveis foram anunciados na noite de sábado, num comunicado emitido pelo Ministério da Energia. O preço do litro do diesel subiu de 125 para 175 libras sírias, enquanto a gasolina de 95 octanas aumentou de 152 para 195 libras e a gasolina de 90 octanas de 142 para 185 libras. Essa decisão provocou protestos generalizados, com manifestações registradas em mais de 80 localidades.
Desde domingo, as pessoas começaram a se reunir em várias áreas de Hasakah, Raqqa e Deir ez-Zor. Os protestos assumiram muitas formas: de greves no setor de transportes, bloqueios de estradas e queima de pneus até o bloqueio da passagem de caminhões-tanque em algumas áreas. Os protestos se espalharam rapidamente para Idlib, Aleppo, Hama, Damasco, Manbij e outros locais.
As exigências foram claras e diretas: reverter os novos preços e responsabilizar os culpados pela medida, a começar pelo Ministro da Energia, Mohammed al-Bashir. A decisão não significa simplesmente um aumento no preço do litro da gasolina ou do diesel; ela ameaça impactar diretamente as tarifas de transporte e os preços de produtos básicos — especialmente farinha e pão —, impondo graves encargos à classe trabalhadora, que ela não pode suportar.
Ao mesmo tempo, várias organizações, grupos políticos e indivíduos independentes convocaram um protesto pacífico para terça-feira, 15 de setembro, às 19h, na praça pública de Salamiya.
Diante da crescente onda de protestos, o governo de transição rapidamente anunciou que revisaria os preços, levantando a possibilidade de retorná-los aos níveis anteriores ou de optar por um aumento menor. Enquanto isso, a Assembleia Popular decidiu convocar o Ministro da Energia para uma sessão em 17 de setembro para discutir a decisão, após uma petição assinada por mais de 59 deputados.
No entanto, essas promessas não conseguiram, até agora, aplacar o descontentamento popular, e manifestações e protestos continuam acontecendo em vários locais. Os participantes dos protestos têm todo o direito de encarar tais anúncios com cautela, tendo em vista que as promessas do governo repetidamente não passaram disso: promessas. As pessoas não querem ouvir falar sobre ações futuras. Elas exigem que o aumento seja revertido imediatamente e que seja adotada uma política econômica que proteja seu direito de viver com dignidade.
Ao longo do último ano, o governo trabalhou para obter o apoio popular, particularmente nas províncias do leste, antecipando o processo de integração com as Forças Democráticas Sírias (FDS). Na época, alegava-se que a libertação de Jazira restauraria a riqueza da região e que os habitantes se beneficiariam dos recursos locais, livres da “corrupção” e das políticas das FDS.
Sob o controle das Forças Democráticas Sírias (FDS), o preço do litro da gasolina nunca ultrapassou 80 libras. Hoje, pouco mais de um ano depois, o preço em Jazira chegou a 195 libras.
O que aconteceu, então, com as promessas de restaurar a prosperidade do povo?
Mudar o partido que controla os recursos não basta se a riqueza em si permanecer fora do controle do povo. É inútil liberar recursos de uma autoridade e transferi-los para outra se o povo continuar privado do seu direito de decidir como esses recursos são extraídos e administrados, e como a renda resultante é distribuída.
Por meio dos canais oficiais, o governo de transição promove a ideia de que o aumento nos preços se deve aos maiores custos globais de transporte e seguro, resultantes da crise no Estreito de Ormuz e das condições de navegação no Mar Vermelho e no Estreito de Bab el-Mandeb.
Esses fatores podem ter um impacto real nos custos de importação e transporte, e as mudanças na economia global não podem ser ignoradas. No entanto, usá-los para justificar que a classe trabalhadora suporte sozinha o peso da crise não é uma solução.
Desde que assumiu o poder, o governo de transição tem dependido fortemente do apoio econômico externo e da abertura do mercado às importações, enquanto a produção interna, os setores agrícola e industrial, e a proteção dos recursos do país não receberam a prioridade que merecem.
Não é possível construir uma economia independente por meio de um mercado aberto ao capital e às importações se os produtores, trabalhadores e camponeses sírios forem deixados sob a pressão dos preços e da pobreza.
A riqueza da Síria não é uma mercadoria para ser entregue a empresas estrangeiras. Petróleo, gás, trigo, água e terra não pertencem ao governo nem aos investidores. Pertencem ao povo sírio, que pagou um preço altíssimo ao longo de dezesseis anos de revolução e guerra, e que não saiu dessa situação apenas para se deparar com mais pobreza, preços altos e insegurança econômica.
Solidarizamo-nos com os protestos populares e exigimos o seguinte:
– Revogação imediata dos novos preços dos combustíveis e restauração dos preços aos níveis anteriores à decisão;
– Elaboração de um plano nacional claro e abrangente para o setor de petróleo e gás, baseado no reconhecimento dos recursos naturais como propriedade do povo sírio, e não como algo a ser dividido entre empresas estrangeiras e interesses privados;
– Proteção e nacionalização dos recursos e dos setores estratégicos — principalmente o petróleo e a agricultura —, colocando a produção sob a supervisão e o controle daqueles que nela trabalham, de modo que os recursos sejam usados para servir à sociedade, em vez de maximizar os lucros dos investidores;
– Apoio aos camponeses, aos trabalhadores e à produção nacional, fornecendo os insumos necessários para a agricultura e a indústria, a fim de evitar crises recorrentes de trigo, combustível e produtos de primeira necessidade, bem como os encargos econômicos decorrentes dos preços que, em última instância, recaem sobre os mais pobres;
– Uma investigação e responsabilização do Ministro da Energia, do governo e de todos os responsáveis por esta decisão, que demonstra uma abordagem baseada no exercício unilateral do poder e na monopolização da tomada de decisões e das fontes de poder. A riqueza do povo não pertence ao governo, e os recursos do país não devem ser geridos sem o controle popular e a prestação de contas;
– Envolvimento do povo e dos trabalhadores dos setores produtivos na elaboração da política econômica e na gestão dos recursos, em vez de impor decisões de cima para baixo, fazendo com que os trabalhadores, os camponeses e os pobres arquem com as consequências.
A crise do petróleo não é simplesmente uma crise por causa do litro de gasolina, assim como a crise do trigo não se limita a uma tonelada de trigo, nem a crise econômica é meramente uma questão de números em boletins de preços. Trata-se da crise de todo um modelo econômico, que prioriza o mercado e o lucro em detrimento dos seres humanos, concentra a riqueza nas mãos de poucos e faz com que a maioria da população pague o preço das crises.
As crises do petróleo, da agricultura e da economia não podem ser resolvidas por meio de novas privatizações, da dependência diante de potências estrangeiras ou do aumento de preços imposto aos setores mais pobres.
A solução começa com o controle popular sobre os recursos, com a reconstrução da produção nacional, com a participação de trabalhadores e camponeses na gestão dos setores geradores de riqueza e com uma distribuição de recursos baseada em critérios de equidade e sustentabilidade.
Movimento pela Liberdade e a Dignidade – Síria
15 de setembro de 2026