Construir um bloco da esquerda independente. Entrevista com Hertz Dias.
Nosso jornal realiza entrevistas com lideranças independentes e das organizações socialistas e comunistas que não integram a frente ampla. Uma iniciativa da CST que visa explorar a possibilidade de construir um bloco da esquerda independente. Confira a entrevista com Hertz Dias.
1. Qual o papel da esquerda socialista e comunista na atual conjuntura?
O papel da esquerda socialista, na situação atual, é atuar como uma alternativa independente da classe trabalhadora diante da polarização entre projetos burgueses e enfrentando o imperialismo. Vivemos um período marcado por crises internacionais, guerras, ofensiva imperialista e crescimento da extrema direita, combinado com limites profundos do projeto de conciliação de classes no Brasil.
Nesse cenário, não basta apenas denunciar a extrema direita. É necessário apresentar um programa que enfrente as raízes do problema, o próprio sistema capitalista e a subordinação do país ao imperialismo e que localize o papel do governo de colaboração de classes do PT na manutenção e administração desse sistema ao longo dos últimos anos.
Isso significa disputar a consciência da classe trabalhadora, dialogando com suas necessidades concretas, como emprego, salários, jornada de trabalho, custo de vida, transporte e moradia, e ao mesmo tempo apontar que essas demandas esbarram nos limites do capitalismo e de seus governos e regime. A tarefa da esquerda socialista é ligar as lutas imediatas a um projeto estratégico de transformação da sociedade, defendendo medidas que enfrentem os grandes capitalistas, os bancos, o agronegócio e as multinacionais. Em outras palavras, construir uma alternativa socialista e revolucionária com independência de classe que organize setores da classe trabalhadora e da juventude para mudar de fato o país.
2. Qual sua visão sobre os 3 anos do governo da frente ampla de Lula/Alckmin?
A marca desse governo é a aplicação de um projeto de conciliação de classes e de subordinação ao imperialismo, apesar da retórica. Lula governa em aliança com setores da burguesia, do Centrão e da direita tradicional, mantendo compromissos com o mercado financeiro e com os grandes empresários. Apesar de algumas medidas que são apresentadas como progressivas, a política econômica segue garantindo lucros aos bancos, preservando o arcabouço fiscal e mantendo a estrutura que transfere riqueza dos trabalhadores para o capital.
Ao mesmo tempo, mesmo as medidas progressivas são insuficientes. Não houve mudanças estruturais capazes de enfrentar a dependência do país, a desindustrialização ou a precarização do trabalho. Muitos indicadores econômicos melhoraram em comparação com momentos de crise anteriores, mas isso não significou uma melhoria real e duradoura na vida da maioria da população. A realidade para milhões de trabalhadores segue sendo salários baixos, informalidade e jornadas extenuantes.
Esse tipo de política acaba alimentando frustração social e abrindo espaço para o crescimento da extrema direita, que se apresenta demagogicamente como alternativa ao sistema, mesmo defendendo um programa ainda mais favorável aos grandes capitalistas.
3. Como combater a extrema direita?
Para combater a extrema direita é preciso mais do que uma frente eleitoral ampla ou acordos com setores da burguesia. Parte da esquerda, como o PT e também setores do PSOL, em nome da luta contra a extrema direita capitulam ao projeto de conciliação de classes do governo Lula. Esse debate apareceu recentemente na discussão sobre a possibilidade de federação entre PSOL e PT, apresentada como necessária para enfrentar a direita.
O problema é que isso não só representa um abandono da independência política dos trabalhadores, como também tem se mostrado ineficiente na prática. Setores importantes da esquerda passam a apoiar o governo, muitas vezes sob a forma de “apoio crítico”, enquanto a extrema direita continua se reorganizando, fazendo propaganda e disputando setores da classe trabalhadora.
A realidade demonstra que não vamos derrotar a extrema direita com conciliação de classes. Isso porque sua força se alimenta justamente das frustrações sociais, da precarização da vida e da falta de mudanças estruturais. Quando um governo mantém acordos com os grandes empresários, o sistema financeiro e o Centrão, preserva as bases que permitem que a extrema direita se apresente demagogicamente como alternativa.
Por isso, derrotar a extrema direita exige também enfrentar o projeto de conciliação de classes e construir uma oposição de esquerda independente. É necessário disputar os trabalhadores, desmontar as ideias da direita e apresentar uma saída que enfrente as causas profundas da crise social e política, apontando para um projeto dos trabalhadores e socialista.
4. Qual sua visão sobre uma frente eleitoral da esquerda independente, dos partidos e organizações que não estão na frente ampla?
Nós entendemos e valorizamos a preocupação dos camaradas, de apresentar uma alternativa unitária das organizações à esquerda do governo Lula. Na luta de classes nos esforçamos por construir a mais ampla unidade de ação para enfrentar os ataques do governo, da extrema direita e do imperialismo em defesa dos direitos dos trabalhadores, dos setores oprimidos e de soberania.
Acontece que nas eleições, nem sempre a soma de organizações nos leva pra frente ou nos deixa mais fortes. Uma frente eleitoral só faz sentido se estiver a serviço da independência de classe e da disputa de consciência. Isso exige um critério básico: uma posição clara de oposição ao governo.
Não é possível cumprir esse papel junto a organizações que combinam críticas com apoio ou mantêm posições ambíguas, pois isso confunde e reforça ilusões. Nesse sentido, experiências como as de PCB e UP mostram o limite. Ambas não adotam uma oposição categórica ao governo.
Uma frente com esse perfil só pode existir ao custo de rebaixar o programa e seu resultado seria uma campanha ambígua, que prioriza a soma de votos em detrimento da tarefa central: apresentar um programa claro e construir uma alternativa socialista.