Dialogando com os camaradas mandelistas (parte I)
Por Claudia Gonzales e Michel Tunes, Coordenação da CST
A organização mandelista, denominada “Quarta Internacional”, realizou recentemente um congresso, debatendo temas como a crise capitalista, o militarismo e o ecossocialismo. Nesta edição, a CST abordará um aspecto da resolução “À medida que as crises convergem, o desafio de como os explorados e oprimidos avançam”. Na seção “VI/ As demandas centrais nestes tempos”, o texto analisa os “chamados governos progressistas” na América Latina, tema de importância programática fundamental para a esquerda socialista no Brasil.
Como definir os governos ditos progressistas?
O texto define os governos “progressistas” como “de conciliação de classes, não são nossos governos” e afirma que “não participamos deles”, sendo “indispensável manter nossa independência”. Em linhas gerais, essa posição poderia ser correta, mas tem uma enorme lacuna: não há definição do ponto de vista de classe, algo essencial em uma resolução trotskista. A CST afirma que esses são governos burgueses e capitalistas, que administram o Estado burguês e atuam para desmobilizar as massas e desmoralizar suas lutas. Essa lacuna, em nossa opinião, está ligada ao apoio político às “medidas progressivas” desses governos.
Apoiar “medidas progressistas” é apoiar o governo
Os pontos que apontam num sentido correto do texto se perdem quando afirmam: “nem lhes devemos apoio incondicional… apoiamos suas medidas progressistas”. A primeira parte é confusa, mas quer dizer que podem dar apoio ao governo em determinadas circunstâncias ou condicionado a algumas críticas. Porém, o marxismo revolucionário não dá apoio político a governos capitalistas sob nenhuma hipótese. Esse tipo de apoio ao governo burguês, via as “pautas progressivas”, aparenta certa autonomia. Porém, é uma ilusão. Não podemos analisar medidas isoladamente, sem considerar a política geral e o caráter de classe do governo, cujo papel é defender a propriedade privada, o Estado burguês e desmobilizar as massas.
Apoiar tais medidas é somar-se à sustentação do governo e ao “campo burguês” da frente ampla, mesmo estando fora dele. Quem faz isso perde independência política e fica preso aos limites capitalistas do governo e do regime burguês. Em cada luta parcial, devemos arrancar conquistas para os trabalhadores, mas sem dar apoio político. Diante de ataques golpistas, defendemos o governo Lula/Alckmin e medidas atacadas pela extrema direita. Mas defender é diferente de apoiar. Jamais concederemos apoio ou confiança ao governo. Apoiar seria romper fronteiras de classe e reforçar a ilusão de que o governo satisfará as expectativas populares, bloqueando uma saída operária e socialista.
Os mandelistas e os governos de Lula
No movimento trotskista, esse debate não é novo. Nos anos 1950, a direção majoritária da IV Internacional, liderada por Pablo e Mandel, orientou apoio ao governo do MNR na Bolívia, algo que congelou o processo revolucionário. Nos anos 1980, o SU liderado por Mandel apoiou o governo sandinista e respaldou a expulsão da Brigada Simón Bolívar. Nossa corrente liderada por Nahuel Moreno combateu essas posições.
Posteriormente os mandelistas apoiaram os governos de Chaves, que terminou em uma ditadura com Maduro. No Brasil, tivemos a integração de Miguel Rosseto ao governo Lula/Alencar em 2003. Rosseto era dirigente da DS/PT, seção oficial do SU, e permaneceu como ministro sem maiores protestos de sua direção internacional. Foi um salto qualitativo: com Rosseto, um dirigente de uma organização que se reivindicava trotskista integrou um governo burguês. Foi uma mudança profunda: em 1964, o Lanka Sama Samaja Party, foi expulso do SU por compor um governo burguês no Ceilão. No caso de Rosseto, em 2003, a direção do SU lançou cartas internas inócuas e resoluções protocolares, que sempre reafirmaram a manutenção da DS na organização.
A CST, nosso camarada Babá, foi parte dos que se negaram a apoiar o governo Lula/Alencar e que lutaram para fraturar o PT pela esquerda, desembocando no PSOL.
Hoje, o PSOL integra o governo Lula/Alckmin com ministérios e cargos, algo que não é questionado pelas tendências mandelistas que estão no PSOL. O ingresso da Ministra Sonia Guajajara e a composição na base aliada é um ponto em comum entre essas forças. E o ingresso de Sonia, liderança máxima da APIB e do PSOL, enfraqueceu a luta nas ruas contra o marco temporal e a ação direta contra o PL da devastação, bem como pressionou para a institucionalização da batalha pela 6×1.
A ironia da história é que muitos dirigentes que criticaram a linha da DS em 2003, combateram o apoio ao governo Lula, hoje integram a organização mandelista. É o caso de dirigentes de organizações como Insurgência/Resistência e MES, dentre outros. Lamentamos que tenham abandonado suas antigas posições, deixando de considerar o apoio político a um governo capitalista como um erro programático e aceitem o ingresso do PSOL nos ministérios do governo Lula/Alckmin.
A CST, seção da UIT-QI, mantém suas definições anteriores. O apoio político a um governo capitalista é um erro que contraria princípios históricos do movimento operário e do marxismo revolucionário. Por isso rompemos com o PSOL quando este perdeu sua independência e passou a apoiar e integrar o governo dito progressista de Lula/Alckmin.
leia aqui a parte II
