A Frente Ampla no Brasil: problemas continuam e não há luta efetiva contra a extrema direita
Por Bárbara Sinedino e Lorena Fernandes – Coordenação da CST
A Frente Ampla governa e os problemas continuam
Estamos indo para o final do mandato do governo Lula. Lula foi eleito com o apoio de setores da classe trabalhadora, da juventude e das mulheres que queriam derrotar a extrema direita. Milhões votaram esperando mudanças reais nas condições de vida, nos salários, no emprego, na educação e na proteção às mulheres. Nós da CST apresentamos candidaturas independentes no primeiro turno e, no segundo turno, fizemos campanha contra Bolsonaro e chamando voto em Lula. Mas, três anos depois, a pergunta é: como está a vida da classe trabalhadora, das mulheres e da juventude?
O custo de vida continua alto e os salários baixos. A precarização do trabalho é a realidade da classe trabalhadora. Hoje, uma das maiores pautas da classe trabalhadora é o fim da escala 6×1 (73% da população apoia o fim dessa escala). De início, setores do governo chegaram a acenar com simpatia à proposta. No entanto, quando o tema começou a ganhar força e chegou ao Congresso Nacional, o discurso mudou. A prioridade deixou de ser atender os trabalhadores e passou a ser tranquilizar os capitalistas preocupados com seu lucro.
Ao mesmo tempo, a violência contra as mulheres segue em níveis absurdos. O ano de 2025 registrou o maior número de feminicídios da história: 1.568 mulheres foram assassinadas por razão de gênero. Diante dessa realidade, o governo federal anunciou o chamado Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio. Porém, o programa foi apresentado sem destinação de verbas suficientes para enfrentar a violência contra as mulheres. Sem investimento real em políticas públicas, casas de acolhimento e estrutura de investigação, qualquer pacto acaba se transformando apenas em discurso.
Derrotar o Arcabouço Fiscal é necessário
É impossível falar em melhoria real das condições de vida enquanto a política econômica estiver subordinada ao arcabouço fiscal. Esse mecanismo coloca um teto para os gastos sociais e garante a prioridade absoluta do dinheiro público para o pagamento da dívida.
O arcabouço funciona como um freio permanente que impede os investimentos nas áreas sociais. Faltam recursos para ampliar o SUS, fortalecer a educação pública, valorizar os salários do funcionalismo e criar políticas efetivas de combate à violência contra as mulheres. Enquanto isso, bilhões seguem sendo transferidos para os bancos por meio do pagamento da dívida pública. O arcabouço fiscal funciona como a coluna dorsal da política econômica do governo e explica por que tantas promessas sociais ficaram pelo caminho. Algo que gera insatisfação eleitoral e dá fôlego para a extrema direita, seja com Flávio Bolsonaro ou Ratinho Junior.
A juventude paga o preço dos ajustes
Entre a juventude, o cenário também é preocupante. Programas como o Pé-de-Meia foram apresentados como solução para incentivar estudantes a permanecerem na escola. Porém, esses programas não combatem a realidade da precarização. A juventude que está nas escolas públicas percebe que, a depender dos governos, o futuro mais provável é o trabalho precarizado dos aplicativos e a escala 6×1.
Além disso, o governo não revogou nenhuma das principais reformas impostas contra a classe trabalhadora nos últimos anos. As reformas Trabalhista e da Previdência seguem intactas. O Novo Ensino Médio foi adaptado, mas segue vigente e não foi revogado, pois o projeto do governo é a precarização da escola pública.
As privatizações também não pararam. Um exemplo é o metrô de Belo Horizonte, que teve a concessão à iniciativa privada mantida e implementada durante o atual governo. Ao mesmo tempo, continuam os leilões de rodovias, portos e infraestrutura energética, aprofundando a lógica de entrega de serviços públicos ao capital privado.
Governo Lula é aliado ao agronegócio
Outro elemento da política do governo é a aliança com o agronegócio. O Plano Safra segue destinando centenas de bilhões de reais para os capitalistas do agro. O decreto 12.600, que privatizava os rios para construir hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins e facilitar o frete de mercadorias do agro, mostra como o governo busca acomodar os interesses do agro dentro da sua política econômica. Depois da luta aguerrida dos povos indígenas do Baixo Tapajós, o governo foi obrigado a recuar e revogou esse nefasto decreto.
Enquanto o governo tenta manter uma imagem progressista no plano internacional, na prática segue fortalecendo um dos setores mais poderosos e conservadores da economia brasileira.
A marca desse governo é o duplo discurso. De um lado, gestos simbólicos importantes, como a presença do líder indígena Raoni na posse presidencial e anúncios de programas sociais. De outro, uma política econômica que continua atendendo aos interesses da burguesia e do agronegócio.
Lutar contra os governadores da extrema direita
É necessário manter de pé o combate contra os governadores da extrema direita, sobretudo contra o mais importante deles, que é Tarcísio de Freitas. Os governadores da extrema direita, eleitos na onda eleitoral bolsonarista, aplicam privatizações como em Minas Gerais ou realizam chacinas, como o genocídio de Cláudio Castro no Rio de Janeiro.
Tarcísio de Freitas se postula como uma das lideranças da oposição e deseja capitalizar a insatisfação com a Frente Ampla na eleição estadual de SP, no maior estado do país.
Um dos problemas que dá fôlego a esses governos é que as lideranças do PT, PCdoB e PSOL à frente dos maiores sindicatos do país, como a Apeoesp, não organizam a luta nas ruas contra esses governadores. E isso é um perigo que gera derrotas econômicas e sociais e fortalece projetos ultrarreacionários da extrema direita.
Fortalecer a mobilização independente
A realidade mostra que apenas a mobilização independente pode conquistar mudanças reais. A luta dos povos originários do Tapajós é uma inspiração para nós. Seguimos na luta independente do governo de Frente Ampla para conquistar nossas pautas: o fim da escala 6×1, a criminalização dos redpills e dos feminicidas e abusadores; mais verbas para os serviços públicos e valorização dos salários; a demarcação das terras indígenas; e o enterro definitivo da extrema direita e da ingerência imperialista. Esse é o caminho para construir um Brasil governado pela classe trabalhadora, rumo a uma Federação das Repúblicas Socialistas da América Latina.
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O governo de Frente Ampla não luta contra Trump e Israel
Para reafirmar seu papel como “polícia do mundo”, apoiar os crimes de Israel e defender os interesses dos EUA, Trump e Israel aumentam a ofensiva e os ataques militares no Oriente Médio, colocando também o Irã e o Líbano na mira das agressões. Ao mesmo tempo, Trump impõe um bloqueio petrolífero a Cuba que agrava a crise energética na ilha.
Nosso lado é o lado do povo palestino em sua luta pela libertação nacional, assim como do povo iraniano e libanês diante das agressões imperialistas, sem afetar nossa independência política em relação ao regime ditatorial e teocrático dos aiatolás, ao qual não oferecemos nenhum apoio político.
Exigimos medidas efetivas de Lula
Frente à situação internacional, Lula apresenta um duplo discurso. Sobre o bloqueio petrolífero de Trump a Cuba, apesar de condenar, Lula não adotou medidas para de fato apoiar a ilha.
Quanto à situação palestina, o governo brasileiro limita-se a discursos de condenação que não se traduzem em medidas concretas. Apesar das declarações públicas mais críticas, o governo Lula não avançou em medidas que poderiam pressionar o Estado nazi-sionista de Israel.
O Brasil mantém relações diplomáticas e comerciais com o governo sionista. Continua exportando petróleo que ajuda a abastecer a máquina de guerra israelense e segue importando tecnologia militar produzida e testada com o sangue do povo palestino. Enquanto isso, soldados da IDF, responsáveis pelos massacres em Gaza, circulam livremente pelo país e transformam praias brasileiras em destinos turísticos após participarem do holocausto contra o povo palestino.
É preciso dar um basta a essa política de palavras sem ação. Se o governo Lula realmente condena os crimes de Israel, deve romper imediatamente todas as relações políticas, econômicas e militares com o Estado sionista, bem como a melhor maneira de apoiar Cuba é enviar petróleo solidário e sem custos para que o povo cubano possa atender às suas necessidades sociais urgentes.
Entendemos que a revogação do visto do assessor de Trump é uma medida absolutamente insuficiente para enfrentar o imperialismo. Exigimos que Lula rompa com os EUA perante o bombardeio do Irã e do Líbano, bem como diante da agressão à Venezuela.
A solidariedade internacional não pode ficar apenas nos discursos oficiais. Ela precisa se expressar nas ruas. Por isso, no próximo dia 30 estaremos mobilizados em defesa da libertação da Palestina. É fundamental que as centrais sindicais, os movimentos populares e as entidades estudantis joguem seu peso para impulsionar essa luta.
Palestina livre já, do rio ao mar.
