“Foi um ato de coragem ocupar uma multinacional americana”

Confira a seguir entrevista com Auricélia Arapiuns, liderança da luta indígena que revogou o decreto de privatização dos rios. É uma vitória que entra para a história da luta de classes e marca 526 anos de resistência indígena. Essa batalha, que iniciou na COP 30, durou mais de um mês, incluindo a ocupação da Cargill em Santarém.

Essa mobilização demonstrou que, quando lutamos com garra e unidade, os governos e as multinacionais retrocedem. Ao paralisar simbolicamente uma gigante do comércio global de grãos, os povos indígenas escancararam a contradição: enquanto corporações acumulam bilhões, comunidades ribeirinhas e aldeias enfrentam contaminação, expulsão e violência. Foi luta de classes em estado ancestral: a floresta e o rio, as culturas e encantados dos povos indígenas, contra o lucro e a lógica privada. Um protesto contra a catástrofe ambiental capitalista, seus governos e multinacionais. A revogação da privatização dos rios não foi gesto de benevolência institucional da frente ampla de Lula. Foi arrancada na marra, na ação direta.

Agradecemos que Auricélia Arapiuns cedeu parte de seu tempo e sua agenda para conversar com nosso jornal. Boa leitura!

Combate Socialista: Qual o motivo da ocupação da seda da Cargil?

Auricélia Arapiuns: Olha foi o Decreto 12.600… A gente é contra todos os projetos de morte dos nossos territórios e dos nossos rios, mas tal decreto foi um absurdo que não deu pra aceitar. É como se nossos rios fossem mercadoria que estivessem para ser negociados e vendidos, e quem compra pudesse fazer o que quisesse. Um dos ataques mais absurdos aos direitos dos povos indígenas e seus territórios. Esse ataque traria consequências graves ao Rio Tapajós e aos demais rios que estavam incluídos no decreto.

A ocupação da Cargill foi uma das lutas mais desafiadoras que já tivemos, porque enfrentar o agronegócio, enfrentar nossos inimigos, não é fácil.

CS: O que vocês pensavam nos momentos difíceis dessa longa luta?

AA: Foi um ato de coragem tomar a decisão de ocupar uma multinacional americana, com um histórico de invasão, de latifúndio, de desmatamento contra nossos territórios para dar lugar à plantação de soja e ao agronegócio. Foi muito desafiador.

Nos momentos mais difíceis da luta, quanto mais desafio vinha pra gente, mais coragem e vontade de lutar nós tínhamos. Foram desafios gigantes. Os temporais e o sol, as doenças causadas pelo pó de soja e agrotóxicos chegaram a todos que estavam lá. O desafio das decisões judiciais, o silêncio e o abandono do governo. Cada desafio nos tornava mais fortes pela defesa dos nossos rios.

CS: Como se mantiveram tão firmes e quais lições ficaram?

AA: Que fique essa mensagem: Somente a luta e união dos povos, o entendimento da população do que está em jogo, e a importância das manifestações locais e internacionais… Só isso muda o futuro e a história. Nossos direitos são inegociáveis, em momento algum pensamos em negociar nosso direito com o governo. Nos mantivemos firmes contra o decreto de dragagem e pela revogação do mesmo. Só a união faz a força. Mas para além disso, essa luta foi ancestral, para honrar a memória dos que estão embaixo da Cargill, dos nossos encantados que sempre estiveram ali. Não se restringe a uma luta política e jurídica, mas uma luta também espiritual na qual a todo momento seguíamos o que nossos encantados nos orientavam. Por eles e deles vem nossa força. A gente espera que o governo se atente ao direito dos povos indígenas, de sermos consultados, de veto, de dizer não.

CS: Como foi o sentimento no anúncio da revogação?

AA: Eu estava no Planalto, na sede do governo. Senti um misto de emoções. Queria estar na Cargill com meus parentes comemorando, mas o mesmo sentimento de alívio e leveza que sentiram lá, sentimos aqui. Me senti muito honrada de estar ali no Planalto e dizer o que eu e meu povo estávamos sentindo todos aqueles dias. Falei ao Boulos, quando ele perguntou se era revogação, eu falei que era, mas que ele precisava ouvir. Falei com alma e sentimento, inclusive o que era ele não conhecer o que é a Convenção 169 da OIT. A comemoração foi muito importante, pois só quem passou o que passamos, de ocupar a Cargill por 33 dias, sabe o sentimento de vitória que foi a revogação do decreto. É uma vitória e um passo importante, mas a luta em defesa dos territórios e rios continua, pois grandes projetos são planejados para a região.

CS: Deixe um recado final aos lutadores que apoiaram essa luta

AA: É triste saber a situação das dragagens do Rio Madeira, do Rio Tocantins, Ferrogrão, da explosão do Pedral do Lourenção, da exploração de petróleo na bacia da Amazônia, portos pensados para a região, exploração de potássio no território do povo Mura, exploração de ouro pela empresa Belo Sun… Tudo isso são lutas que precisam ser travadas em defesa da Amazônia. O povo da Amazônia precisa se atentar, pois não é só sobre a privatização do Tapajós, mas todo o conjunto de morte que é planejado para a Amazônia e para os territórios indígenas. Ganhamos a batalha, mas a guerra não acabou. E a gente continua firme e resistindo, protegendo e lutando pela Amazônia, pelos nossos territórios, pelas crianças, pelo futuro, pelo agora e pelo planeta. Essa luta não é só pelos povos indígenas.

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