Carta aberta à UP e à camarada Samara Martins É preciso uma Articulação para colocar o Povo na Rua e unificar as esquerdas nas eleições!
– Camarada Samara Martins, pré-candidata à Presidência da República pela UP,
– Camaradas da Unidade Popular,
1 – Acompanhamos com atenção a construção da pré-candidatura de Samara Martins, da UP. Temos acordos com várias das posições de vocês em defesa do povo trabalhador, da juventude, das mulheres e do povo negro, como “obrigatoriedade dos políticos e seus familiares diretos utilizarem serviços públicos” e de “aumentar em 100% o salário mínimo”. É um dado positivo para as esquerdas socialistas e comunistas que Samara Martins tenha pontuado nas pesquisas, empatado com Zema. Conforme vocês afirmam: “Entre as mulheres, Samara Martins pontua 3,5% e é a terceira colocada, ficando atrás apenas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Já entre a juventude (entre 16 e 24 anos), em que o voto é menos concentrado entre os pré-candidatos… atinge 14,2%”. (28/03, unidadepopular.org.br/blog). É algo que acrescenta responsabilidades para a UP e, por isso, nos dirigimos a vocês. Nossa proposta é que vocês realizem ações para:
a) retomar a Articulação Povo na Rua com todos os que queiram lutar e, assim, furar o bloqueio das direções majoritárias, como fizeram anos atrás nas ruas.
b) unificar as esquerdas nas eleições de 2026, por meio de um bloco ou frente eleitoral, numa chapa coletiva que abarque o PSTU e o PCB, que possuem pré-candidaturas.
2 – O cenário das eleições é marcado pela ação da extrema direita imperialista de Trump na América Latina e em Gaza, pelo fôlego do bolsonarismo, apesar das dificuldades que o escândalo de Vorcaro apresenta para Flávio Bolsonaro. Por outro lado, existe uma resistência contra esses planos nos EUA, na Argentina e na Bolívia, que merecem solidariedade. Ao mesmo tempo, o governo capitalista de Lula/Alckmin aplica arcabouço fiscal, plano safra, não atende aos grevistas das federais, não é consequente nas pautas feministas e pelo fim da 6×1 e financia privatizações de Tarcísio. Como vocês dizem na declaração da UP: “o governo mantém a política econômica de submissão aos bancos, ao capital financeiro e à grande burguesia nacional, especialmente ao agronegócio. Abandonou a reforma agrária, não revogou as reformas trabalhista e da previdência, manteve uma aliança com os partidos do Centrão no Congresso Nacional” (20/05, unidadepopular.org.br). Consideramos importante aprofundar o diálogo entre as organizações da esquerda que combatem a extrema direita e não compõem a frente ampla de Lula com os patrões.
3 – Como vocês sabem, temos diferenças políticas e programáticas. Elas já apareceram em reuniões entre nossas organizações ou debates anteriores sobre o programa, o controle operário, a dívida pública, a relação com os governos de conciliação de classes, devido às tradições diferentes às quais pertencemos. Mas isso nunca impediu construir blocos ou frentes entre nós, como foi o caso recente da Articulação Povo na Rua ou da chapa do DCE da USP; ou, há muitos anos, a oposição na UNE e UBES. Sempre atuamos com máximo respeito em nossas divergências no movimento sindical, a exemplo da chapa de vocês com a CNB/UNIR-PT no SINTUFRJ. Por outro lado, isso jamais nos impediu de nos solidarizar com vocês e suas ocupações populares, repudiando a repressão da PM contra a UP.
3.1 – Seguimos defendendo que a esquerda socialista e comunista precisa apresentar um programa explícito pelo fim da PM, não pagamento da dívida pública, estatização do sistema financeiro, expropriação das empresas, reestatização das empresas privatizadas sob controle da classe trabalhadora, ruptura com o imperialismo e com os grandes capitalistas rumo a um Estado operário com democracia. Algo diferente das experiências impulsionadas por Stalin, Mao, Hoxha ou Fidel, que nós denominamos de burocráticas, como vocês sabem. Ao mesmo tempo, consideramos um erro transformar essas divergências teóricas e programáticas em barreiras sectárias que impeçam a construção de ações comuns na luta de classes e no terreno político, como fazem algumas forças do movimento trotskista e do movimento stalinista. Isso é algo que nós consideramos um erro. A unidade das forças socialistas e comunistas, em suas várias tradições, é importante para as lutas e também no terreno político. Blocos ou frentes são questões táticas, enquanto, estrategicamente, cada partido segue com independência organizativa e programática. É possível a unidade, apesar das divergências; basta vontade política.
3.2 – Em nossa visão, não é correto que existam três pré-candidaturas à esquerda da frente ampla: uma da UP; outra dos camaradas do PSTU; outra dos companheiros do PCB. Nós da CST defendemos uma chapa unitária nas eleições que agrupe UP, PSTU e PCB, bem como outras forças como PCBR, MRT, SoB e lideranças independentes como Plínio Jr., Renato Cinco, Dirlene Marques, lutadoras indígenas e feministas. A juventude da UP, a UJR e o campo Correnteza lograram uma unidade no movimento estudantil que abarcou o conjunto da esquerda na UNE e UBES, compondo a chapa ou lhe dando o voto na plenária final. No DCE da USP, a chapa unificou UP, MES/PSOL, PCBR, PSTU e CST. É preciso olhar o exemplo da juventude e, com maturidade, dar passos nesse sentido, retomando uma Articulação que coloque o Povo na Rua e construindo um bloco ou frente das esquerdas comunistas e socialistas, sem vetos ou sectarismo.
4 – A realidade coloca uma tarefa para as esquerdas: construir uma alternativa independente da conciliação de classes da frente ampla. O governo Lula derrotou eleitoralmente Bolsonaro, fato importante para milhões de trabalhadores e jovens. Quase toda a esquerda participou dessa vitória indo às ruas contra Bolsonaro e depois fazendo campanha contra a extrema direita no segundo turno. Isso foi correto: os setores que chamam voto nulo num contexto assim estão equivocados, por mais revolucionário que seja seu programa ou por melhores ativistas que sejam nas lutas. Porém, a manutenção de alianças com setores burgueses, o ajuste fiscal, os acordos com o Centrão e os ataques aos serviços públicos do governo capitalista de Lula impedem que os problemas econômicos e sociais da classe trabalhadora sejam resolvidos e que as causas profundas que alimentam a extrema direita sejam enfrentadas. A frustração social produzida por essas políticas pode fortalecer novamente o bolsonarismo e abrir espaço para novos fenômenos reacionários, como vimos recentemente no Chile. Por isso, defendemos que a luta contra a extrema direita não pode ser reduzida à defesa passiva do governo ou a fingir que ele não existe, ou apenas afirmar cada partido nas eleições.
4.1 – É preciso fortalecer a mobilização independente da classe trabalhadora, as greves, as ocupações, construindo uma alternativa de esquerda unitária. Juntos, ainda somos pequenos para as tarefas da revolução brasileira. Divididos, não temos condições de batalhar para construir um polo à esquerda. Assim, mais e mais ativistas serão tragados pela social-democracia; ou iludidos com as potencialidades dos mandatos parlamentares na frente ampla. Nesse sentido, devemos fazer um esforço, superando a autoproclamação. Existe espaço para retomar o debate sobre uma Articulação ao estilo do que foi a Povo na Rua nas lutas e para construir um bloco ou frente de esquerda socialista e comunista nas eleições. Algo independente do governo Lula e que lute por:
a) apoiar as greves e lutas populares: em apoio à greve dos técnicos administrativos das universidades, pelo fim do arcabouço fiscal e do plano safra do governo Lula, exigindo que o governo federal imponha medidas pelo fim da 6×1, fim dos feminicídios e aumento do salário mínimo, defesa do rio Xingu e demarcação das terras indígenas, fim da violência policial nas favelas e no campo, dentre outras;
b) contra a extrema direita imperialista de Trump e suas ações contra Venezuela, Cuba, Irã, imigrantes e povo palestino; contra o sionismo de Israel e o genocídio em Gaza, o bolsonarismo e os governadores da extrema direita, como Tarcísio;
c) rejeitar alianças com partidos patronais, construir candidatura única, uma chapa coletiva, sem patrões e financiada pela militância; apresentar uma plataforma emergencial para enfrentar a fome, o desemprego, a precarização e a violência contra o povo pobre. E permitir que cada partido ou organização que componha a frente ou bloco eleitoral divulgue seu próprio programa com independência, bem como ocorram debates públicos para construir essa plataforma.
6 – Entendemos que essa frente não exige que cada organização abandone sua história, suas formulações teóricas ou sua identidade programática. A unidade de ação e os blocos entre socialistas, comunistas e lutadores sociais podem ser construídos com respeito e preservando o debate franco e as diferenças. Por isso, propomos abrir um diálogo entre a UP e as direções dos demais partidos e organizações, setores independentes da esquerda e movimentos populares combativos para discutir essa hipótese. A CST está à disposição para ajudar na concretização de qualquer dessas propostas unitárias. Em nossa visão, não há saída para o povo trabalhador através da conciliação com banqueiros, empreiteiras, agronegócio e grandes empresários, como faz Lula e a frente ampla. A saída deve vir da organização independente da população trabalhadora, da mobilização social e da construção de um projeto socialista que esmague a extrema direita nas ruas. Pela independência política da classe trabalhadora. Pela unidade das esquerdas socialistas e comunistas nas lutas e nas eleições, numa chapa unificada sem patrões.
Seguimos à disposição para esse diálogo fraterno e militante.
São Paulo, 25/05/26
Executiva Nacional da CST (Corrente Socialista de Trabalhadoras e Trabalhadores, Organização Socialista Independente. Seção no Brasil da UIT-QI)
