Dialogando com os camaradas mandelistas (parte II)

Por Michel Tunes e Claudia Gonzales, Coordenação da CST

Na primeira parte deste artigo, no CS n°202, dialogamos com um aspecto da resolução “À medida que as crises convergem, o desafio de como os explorados e oprimidos avançam”. Na seção “VI/ As demandas centrais nestes tempos”, o texto aborda os “chamados governos progressistas” na América Latina. Aqui, aprofundamos esse debate.

A resolução apresenta uma orientação equivocada ao afirmar:
Na situação atual, com o avanço da extrema-direita no mundo, além de promover as melhores formas de combate ao fascismo, com frentes antifascistas e unidade de ação com seus representantes nos movimentos, combinamos o apoio a medidas progressistas de governo com a exigência de que trabalhem no interesse dos trabalhadores e dos oprimidos e avancem.”

Na prática, isso semeia a ilusão de que os governos chamados progressistas compõem um “campo burguês progressista” contra a extrema-direita e que poderiam deixar de ser capitalistas para “trabalhar no interesse dos trabalhadores”. O que é equivocado.

Um campo burguês progressivo?

A resolução, nesta parte, adere à chamada teoria dos campos burgueses progressivos. Nela, abandona-se a divisão da sociedade em classes e adota-se uma divisão entre campos “democráticos” e “autoritários”, “fascistas” e “antifascistas”. Essa política ignora um princípio básico do marxismo: a contradição fundamental da sociedade capitalista é a luta de classes entre burguesia e proletariado. Assim, essa linha aprisiona a classe trabalhadora ao campo de algum setor da burguesia, dito progressista ou democrático.

Unidades de ação podem ser feitas com quem for necessário para lutar nas ruas por pontos específicos, sempre buscando fortalecer os setores operários em qualquer manifestação unificada. Por outro lado, as frentes pressupõem programa e instâncias comuns. Elas só podem ser construídas entre organizações da classe trabalhadora.

Discordamos que a luta contra a extrema-direita seja usada para secundarizar o debate sobre os chamados governos progressistas, sua composição de classe e o fato de que governam o país. Também discordamos que essa luta se transforme em uma orientação que coloca a classe trabalhadora a reboque desses governos, diluída em um abstrato “campo progressista”, limitando-se a apoiá-los ou a disputar seus rumos.

Para nós, a posição correta é mobilizar juntos contra a extrema-direita, sim; ceder nossa independência de classe ao governo capitalista, não. Essa é a forma como os trotskistas devem atuar: esmagar a extrema-direita nas ruas, por meio da luta unificada, com total independência.

Trotsky e o programa fundacional da IV

As definições políticas e programáticas de Leon Trotsky e do Programa de Transição da IV Internacional seguem atuais. Muitas delas estão diretamente ligadas à luta contra a extrema-direita. Trotsky combateu a extrema-direita sem jamais perder sua independência de classe. Criticou os comunistas que subestimaram o fascismo, propôs a unidade entre comunistas e social-democratas contra os nazistas e orientou a luta no campo militar republicano contra o franquismo. Nessas batalhas, defendeu piquetes de autodefesa, o armamento do proletariado, a greve geral, entre outras medidas, mas criticou firmemente a política de frente popular, as políticas de colaboração de classes e alianças com nossos inimigos de classe.

No Programa de Transição, afirma-se que “a impiedosa crítica da teoria e da prática da ‘Frente Popular’ é a primeira condição de uma luta revolucionária contra o fascismo”. O fato de definir isso como “primeira condição” em um documento programático tão relevante não é algo menor: significa rejeitar qualquer sectarismo na luta comum nas ruas, mas sem jamais se diluir na conciliação de classes com a burguesia ou “sua sombra”.

Trotsky nunca, em nenhuma circunstância, apoiou um governo capitalista, nem suas medidas ditas “progressivas”. Além do que está expresso no Programa de Transição e em dezenas de textos, cabe lembrar sua orientação aos partidários do SWP nos Estados Unidos: em meio à Guerra Civil Espanhola, ele deixou claro que era correto lutar no campo militar republicano, mas nunca apoiar o governo burguês, nem suas medidas no parlamento, nem sequer o orçamento militar. Suas críticas ao POUM espanhol, acusando-o de capitular à frente popular, definindo como uma traição, não deixam dúvidas sobre a posição de Trotsky.

Não compor nem apoiar o governo Lula/Alckmin!

Nós, da CST, somos a seção no Brasil da UIT-QI, uma organização marxista revolucionária internacional. Mantemos de pé as batalhas e elaborações do dirigente trotskista Nahuel Moreno e as polêmicas com as formulações de Ernest Mandel. Por isso, atuamos de forma diferente.

Não podemos depositar confiança ou apoio no governo capitalista de Lula/Alckmin. Defendemos que as centrais sindicais, os movimentos estudantis e populares devem se manter independentes e construir a luta pelas nossas reivindicações. Nossa linha não é a ilusória “pressão” ao governo para a “esquerda” ou combater somente “alas da direita” ou a “burguesia e mercados” em abstrato. O governo é burguês, não está em disputa e faz pactos com setores do bolsonarismo. A CST não está no dito “campo burguês progressista” da frente ampla. Nosso campo é de classe, contra os patrões e sua exploração. Batalhamos para construir uma esquerda independente, sem patrões.

Em vez de “disputar os rumos” ou apoiar “medidas progressistas”, nosso eixo é impulsionar a mobilização pelas reivindicações operárias e populares, com uma postura independente do governo.

Nesse caminho, defendemos a necessidade de lutar por um governo da classe trabalhadora, sem patrões, que rompa com o capitalismo e a exploração. Defendemos um Brasil socialista, com uma verdadeira democracia operária.

Na foto acima, Sônia Guajajara, deputada do PSOL, que se tornou ministra do governo Lula/Alckmin com votos das forças mandelistas

 

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