“O Movimento das Mulheres do Médio Xingu resolveu se juntar e se levantar”

Desde o dia 23/02, povos indígenas do Médio Xingu ocupam a sede da FUNAI, em Altamira (PA), em mais uma ação direta contra o avanço do capital minerador sobre nossos territórios. A mobilização, protagonizada por mulheres indígenas, denuncia o projeto da mineradora canadense Belo Sun na região ancestral da Volta Grande do Xingu empreendimento que ameaça aprofundar a violência contra os povos da Amazônia.

A exploração de ouro, que já deixou um rastro de destruição ambiental e social na região, agora coloca em risco as terras, rios, matas e encantados de 12 Terras Indígenas. Entre os povos afetados estão os Juruna, Xikrin, Xipaya, Arara, Kayapó e Kuruaya, além de povos de recente contato, como Aruetés, Parakanã e Arara da Cachoeira Seca.

Nos últimos dias, a luta se deslocou para Brasília, acompanhando o Acampamento Terra Livre, principal espaço de articulação nacional dos povos indígenas. A ida à capital federal busca romper o cerco de invisibilização e pressionar o poder político no centro das decisões, denunciando os interesses das grandes mineradoras. A movimentação visa cobrar um posicionamento da FUNAI em nível nacional e do governo federal contra a Bela Sun.

Em meio a essa jornada de resistência, conversamos com Sol Juruna, do povo Juruna da Terra Indígena Paquiçamba. Uma das lideranças do Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu. Ela está na linha de frente da ocupação e da denúncia contra o avanço da mineração. Confira a entrevista a seguir.

Combate Socialista: Quando começou a ocupação em Altamira e quais motivos?

 Sol Juruna: A ocupação se iniciou em 23 de fevereiro, e hoje vamos levar essa luta para Brasília, e de lá para Belém. Sobre o dia dia da Ocupação, fizemos várias mobilizações, como por exemplo indo até a Câmara Dos Vereadores, passeatas pela cidade, para marcar nossa presença na cidade e nosso posicionamento contra a Belo Sun. Além da pintura, alimentação e apoio a outros participantes que adoecem. Temos o apoio de outros povos, pois reconhecem que estamos lutando pela Vida, e vamos trazer ao governo que não queremos a Belo Sun em nosso território, e queremos a anulação de qualquer licenciamento que possa vir para a Belo Sun.

CS: Por que os governantes não comparecerem à audiência pública convocada pela ocupação?

SJ: O Governador não apareceu na assembleia pública que convocamos. Quando ele veio a Altamira ele veio falar conosco à portas fechadas, e não fomos permitidos gravar a reunião. A gente sabe que o governo não se importa, até porque vimos a declaração dele, durante a inauguração da Usina da Paz, na qual ele fala de um “progresso” que beneficia bilionários acima dos interesses dos povos e o Rio Xingu.

CS: Qual a situação atual do rio Xingu e dos povos indígenas depois de Belo Monte?

SJ: Hoje em dia, após Belo Monte, sofrem com secas no rio, poucos peixes, agravado pela morte da Piracema. Tanto é que o IBAMA frequentemente está mostrando o que acontece aqui. A seca no rio e as dificuldades de pesca, causadas por Belo Monte, têm piorado gravemente as condições de vida dos povos indígenas. E agora temos uma nova empresa, a Bela Sun, às portas querendo entrar e acabar com a vida de todo mundo. Tivemos uma passeata pelo centro de altamira e conseguimos o apoio das pessoas e movimentos daqui.

CSComo é a situação das mulheres indígenas no Xingu?

SJQuero ressaltar que fomos nós, Movimento das Mulheres do Médio Xingu que resolveu se juntar e se levantar contra esse empreendimento da mineração. Trouxemos o apoio de diversos povos e lideranças para o nosso lado.

Dito isso, as mulheres indígenas do Médio Xingu ainda estão muito oprimidas pelas lideranças, pois vivemos em um mundo patriarcal. Quem tem a linha de comando ainda são homens, e as mulheres ficam oprimidas. Quando as mulheres indígenas do Médio Xingu se levantam para lutar contra a Belo Sun e conseguem apoio dessas lideranças, é uma vitória, uma conquista. Quando se fala em lideranças, já se pensa em homens, e a mobilização das mulheres indígenas tem sido uma forma de quebrar essas barreiras.

CSComo é a situação dos povos indígenas da região?

SJ: Somos 12 Terras Indígenas, sendo 3 de recente contato, que é Araueté, Parakanã e Arara do Cachoeira Seca. São 12 etnias aqui. Muitas mulheres indígenas em contexto urbano tiveram que sair de suas Terras Indígenas porque, há muito tempo, não tinham assistência. E hoje essas mulheres lutam pelo reconhecimento de suas terras, de seu nome, de seu povo, de sua etnia, junto do nosso movimento.

CS: Há conflitos entre essas etnias?

Sim. Havia um conflito lendário entre os Xikrins e os Parakanã, porém o movimento de mulheres indígenas conseguiu trazê-los para lutar juntos contra a Belo Sun. O movimento conseguiu quebrar barreiras e mostrar que a união faz a força. Tomamos como exemplo a união do povo do Baixo Tapajós, que ocupou a Cargill por mais de 30 dias e derrubaram o decreto do governo federal. Cabe a nós, povos indígenas, derrubarmos esses conflitos. O movimento de mulheres indígenas está tentando quebrar as barreiras dos vários conflitos entre os povos indígenas, até porque nós somos quem está na base, tendo de nos preocupar com nossos filhos, sendo também mães, irmãs e primas das lideranças indígenas, o que acreditamos que vai ajudar a quebrar essas barreiras.

CS: Como é a atuação da indústria madeireira?

SJ: Em relação à indústria madeireira, as terras do povo Xikrin estão muito desmatadas. Muita madeira foi tirada de lá, e há muitos conflitos e ameaças contra o povo Xikrin por parte das madeireiras.

CS: Deixe um recado para nossas leitores e leitoras

SJ: Um recado para os leitores e leitoras do Combate Socialista é que os povos indígenas querem a vida, escolhemos a vida, e não o dinheiro e o ouro para enriquecer mais ainda os ricos. A gente quer a vida do Rio Xingu, isso que é riqueza para a gente.

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