NENHUMA RETALIAÇÃO AOS ESTUDANTES GREVISTAS!

No dia 7 de maio, nós iniciamos a vitoriosa ocupação da reitoria da USP.  A ocupação colocou o reitor contra a parede. Fizemos debates, atividades e organizamos a nossa permanência no local. Já na primeira noite, o DesReitor cortou água e energia para nos amedrontar, mas seguimos firmes! Todos os olhos estavam voltados pra ocupa da USP de quinta a sábado, quando, na madrugada de Dia das Mães, o choque da Polícia Militar nos reprimiu brutalmente, com a detenção de quatro estudantes e agressões graves a dezenas de grevistas.

A invasão da PM foi uma medida desesperada e covarde para nos fazer recuar, mas a verdade é que isso nos encheu de revolta e fomos mais fortes enfrentar a reitoria, o governo estadual e toda a extrema direita, para defender nosso direito de ingressar e permanecer na “maior da América Latina”.  FIM DA PM DA USP! FIM DOS INQUÉRITOS AOS LUTADORES DA OCUPAÇÃO!

Na voz: quem esteve na ocupa

Nick Trindade – caloura de Pedagogia | FEUSP

Quando penso que naquele dia algumas horas atrás nós estávamos fazendo um churrasco, estava tudo bem quando eu fui dormir não me lembro o horário ao certo coloquei meu fone e foi dormir, os dias na ocupação foi uns dos momentos universitários até o dia de hoje que eu mais fiquei feliz, pessoas unidas por uma mesma causa maior. Quando acordei mais ou menos do nada os policiais já estavam lá dentro senti meu peito doer e uma ansiedade já subir só consegui pegar minha bolsa, quando estávamos prestes a sair um policial meteu uma cacetada em um rapaz na nossa frente, além de que atrás da gente tinha mais pessoas apanhando e isso com uma junção de luzes e bombas, eu fui uma das pessoas que teve que ir ao hospital por essa junção a minha sorte e que a companheira Isa nos ajudou do início ao fim.

Avalanche – Estudantes do IAG

Eu estive presente durante os cinco dias de ocupação da reitoria quase que em sua integridade, saí apenas duas vezes para pegar trocas de roupa e tomar banho, e posso dizer que durante todo esse período houve um claro esforço por parte dos alunos de tornar o ambiente um local agradável, atrativo e aberto. Tivemos reuniões diárias e divisões de grupos para garantir a alimentação, higiene e segurança de todos presentes, além de vários eventos culturais para tornar a permanência algo acolhedor e educativo.

Também estive lá para presenciar a resposta violenta da polícia, eu havia acordado poucos minutos antes da gritaria começar, saí de lá com lanternas apontadas pra minha cara, enquanto assistia policiais pisando em qualquer coisa que tivesse no chão, quando passei pela porta respirei gás lacrimogêneo e tive uma bomba de efeito moral arremessada a poucos metros de mim, tudo isso enquanto assistia amigos e colegas sendo espancados e xingados. Pensar na diferença na forma como os estudantes agiram e a forma como a polícia respondeu é quase como ver uma caricatura sobre a harmonia e a guerra.

Lucas – estudante de Pedagogia | FEUSP

Fui acordada por volta das 4 da manhã pela minha irmã que também estava na construção da ocupação. Minha irmã só dizia meu nome e “polícia” repetidamente. Não demorou cinco segundos para eu perceber o que estava acontecendo, já que, no dia anterior, estávamos conversando sobre a possibilidade de uma reintegração de posse e mesmo que essa  repressão não tenha tido nenhuma legalidade eu já estava refletindo sobre o que fazer nesse caso. Sinceramente, a memória do momento da repressão é meio turva. minhas lembranças mais claras são do momento em que sai da reitoria. Até minha saída lembro do meu único pensamento ter sido: “preciso tirar minha irmã daqui e pegar o máximo de coisas que eu conseguir”. Isso ficava martelando na minha cabeça, lembro de nem ter me levantado completamente pra conseguir ficar próximo do chão e pegar as coisas do caminho enquanto minha irmã saia na frente.

Isso não durou muito já que quando eu acordei os policiais estavam entrando no dormitório e coagindo os alunos com agressões físicas e verbais, eu mesma fui coagida por um PM que entrou nos quartos que me ameaçando com o cassetete e me chamando de vagabundo, por sorte minha irmã, que estava em um estado mais racional que eu e ainda não tinha saído totalmente do quarto me puxou pra fora antes que as agressões passassem da verbalização, quando saímos do quarto eu só precisava que minha irmã saísse dali.

A saída foi difícil, pois tivemos que atravessar todo o cordão de segurança por que ficamos entre a polícia e eles, mas assim que saímos eu consegui raciocinar melhor e agora minha lembrança é mais clara, som de bombas, pessoas correndo e passando mal era o que eu via e ouvia a minha volta, tudo estava escuro e confuso pra todo mundo, eu tentei ficar próximo a saída da reitoria para conseguir encontrar rostos conhecidos que precisassem de ajuda já que nos dias anteriores encontrei três calouros que, além de muito jovens, estavam completamente sozinhos, mas assim que saímos os papéis de racionalidade se inverteram e minha irmã que me ajudou a sair de dentro da reitoria começou a entrar em desespero e tentar me levar embora daquele lugar, ela estava assustada e principalmente preocupada comigo que sou uma pessoa deficiente e que as agressões policiais poderiam me causar ferimentos bem graves em relação a isso.

No final das contas, além da ilegalidade do processo de invasão da polícia, a agressividade foi inadmissível, tivemos pessoas com ferimentos graves, crises em pessoas TEA que precisaram ser acolhidas por ambulâncias e marcas emocionais que vão acompanhar os estudantes por toda sua vida.

Estudante do IAG

Em relação à ocupação, participei das ações comunitárias junto aos alunos e foi bonito ver o cuidado que demonstravam com a organização do espaço. Um GT de limpeza foi disponibilizado e posso afirmar com propriedade que o chão do edifício raramente esteve tão bem cuidado. Realizamos eventos culturais e, mesmo sob constante ameaça policial, destacava-se a coragem desses alunos, que lutam por melhores condições de vida acadêmica.

O contraste entre a forma organizada e pacífica com que os estudantes se mobilizavam e a truculência da repressão sofrida no dia da ocupação é, no mínimo, gritante. Naquela madrugada — véspera do Dia das Mães — minha mãe não recebeu um presente: recebeu preocupação, medo e enorme tristeza. Ela sabia que a violência empregada contra quem manifestava em plena pacificidade era completamente desproporcional.

Mais grave ainda foi a covardia negligente da reitoria, na figura de Aluísio Segurado, que simplesmente mentiu ao afirmar desconhecer a invasão.

Estudante do IAG

A ocupação da reitoria da USP foi uma das ferramentas que mais me fez acreditar, entender e estudar sobre o Movimento Estudantil. A ocupação foi muito além de apenas estar ali, mas um momento de reflexão coletiva, atividades culturais diferentes e muitas novas primeiras vezes… Depois de anos, pela primeira vez ocupamos o novo prédio da reitoria. Depois de anos, pela primeira vez fizemos um evento político artístico na Praça do Relógio, ocupando todo o espaço, que pouco se vê movimentação. Demos vida a Praça.

O que eu sentia na ocupação, no fundo do meu coração, era cada vez mais a certeza de que estávamos corretos, que era justo, e que tudo aquilo faria parte da história da USP. Que meus irmãos mais novos, primos e familiares poderão ter uma universidade melhor porque construímos um movimento muito importante.

Mas, após a invasão truculenta e criminal da Polícia Militar, algo dentro de mim mudou. O que antes me movia pela felicidade e certeza de que tudo se encaminhava para ficar bem, agora me move pela raiva com tudo que todos os camaradas sofreram, onde o chefe do Estado Tarcísio de Freitas, passou por cima violentamente dos estudantes com aval do Reitor Aluísio Segurado.

As negações de mesa, o diálogo fechado de uma chapa “para todos”, me acendeu cada vez mais, para continuar as mobilizações nos institutos e nos atos.

Os estudantes são fortes, a ação de alguns coletivos em estar com suas bases e resistir a toda ação violenta é o diferencial, e se algo me ensinou nessa ocupação, é que mesmo com a coerção e ameaças, nós estudantes sempre vamos à luta.

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