A Bancada Radical não tem uma definição categórica sobre a independência de classe (Parte III)

A Bancada Radical não tem uma definição categórica sobre a independência de classe (Parte III)

(este texto é a terceira parte do Um diálogo com a bancada da esquerda radical de Jones Manoel, Sâmia Bomfim e Glauber Braga). Leia o texto dois: Nossa visão sobre os imperialismos e a China)

8- O manifesto apresenta “10 medidas econômicas contra o modelo neoliberal e sua gestão política, materializada numa austeridade fiscal permanente, na submissão do Estado ao mercado financeiro e em uma política monetária voltada exclusivamente ao rentismo. Trata-se de um regime econômico que conduz o país à desindustrialização, ao empobrecimento planejado da população e ao aprofundamento de uma estrutura colonial de exploração“. Trata-se, globalmente, de uma caracterização com a qual concordamos. Porém o manifesto não diz quem faz essa gestão política e quem governa os rumos do país?. Não se trata de um “modelo neoliberal” autônomo. Trata-se do programa e das escolhas estratégicas do governo Lula e das alianças com nossos inimigos de classes. É insuficiente denunciar somente o “modelo neoliberal” e sua “gestão política”. É preciso identificar o governo de Lula e a coalizão burguesa da Frente Ampla que administram esse modelo. A ausência dessa identificação deixa a crítica incompleta, acadêmica e abstrata, impedindo-a de ir até uma das raízes do problema, perdendo força e radicalidade.

9- Se o manifesto define corretamente que a burguesia brasileira está subordinada ao imperialismo, deveria extrair daí uma conclusão política: não é possível estabelecer alianças com essa mesma burguesia e nem governar com ela. Sendo assim teriam que criticar a aliança burguesa da frente ampla e o governo capitalista de Lula que aplica o “modelo neoliberal”, faz sua “gestão política” por meio da “austeridade permanente”. O silencio quanto ao papel do governo Lula não é próprio de uma esquerda radical. Trata-se de um equívoco central no documento dos camaradas Jones, Samia, Glauber e Renato. A delimitação categórica das alianças com os patrões e dos governos comuns com a burguesia é um ponto estratégico para a independência de classe: esse foi um dos pontos chaves do manifesto de fundação do PT em 1979 e do projeto fundacional do PSOL de 2003, projetos que se perderam sua independência quando passaram a se coligar e governar com a burguesia. Tal definição atravessa o debate político da esquerda comunista e socialista no Brasil desde os anos 30: quando os integrantes da Oposição de Esquerda, expulsos do PCB, questionaram a colaboração de classe emanada do PCUS Russo e imposta ao PCB recém fundado no Brasil.

10- Em nenhum momento o texto da bancada esquerda radical afirma que o atual governo Lula administra o modelo econômico capitalista a serviço da burguesia e nem crítica que Lula mantém alianças estratégicas com os empresários. Da mesma forma, o manifesto nada diz da política de alianças e pactos com partidos de direita, setores do Centrão e a cúpula das Forças Armadas. Porem essas alianças e pactos da frente ampla de Lula contribuem para dar fôlego ao bolsonarismo e aos governadores ultrarreacionários. Tampouco menciona que o governo Lula mantém relações diplomáticas amistosas com o governo de um líder fascista e genocida como é Trump e com o enclave nazista de Israel que perpetua o holocausto em Gaza, o que o impede a frente ampla e Lula de serem um instrumento efetivo e radical contra a extrema direita. Essa lacuna da bancada radical limita a coerência entre o diagnóstico geral, correto em muitos aspectos (sobre o capitalismo, o imperialismo, combate à extrema direita) e a linha política apresentada pelo manifesto. Ao final, a consequência prática acaba sendo defender o voto em Lula, fortalecer a frente ampla com um perfil crítico, sem combater a estratégia da colaboração de classes da CNB/PT, do PCdoB, da REDE e da majoritária do PSOL. E está mais do que comprovado pela experiência internacional e histórica que a colaboração de classes nunca faz nenhuma mudança social de verdade, se limita a administra a crise do capitalismo, se entrega ao estado burguês e, cedo ou tarde, preparar retrocessos e derrotas para a classe trabalhadora e setores populares.

11- Sem combater abertamente a colaboração de classe, a radicalidade perde força. E assim podemos entrar num caminho errado. Algo que reproduz antigos erros da estratégia etapista do stalinismo do PCB em suas inúmeras variantes dos anos 60 (importados de Moscou, Cuba, China ou Tirana); da frente ampla do PCB, PCdoB e MR8 dos anos 70 e 80 dentro do velho MDB. De tal modo que se pode baixar a guarda diante das formulações reformistas do programa democrático e popular do PT dos anos 1980 e 1990. E assim não batalhar a fundo contra colaboração de classes de Lula. É um perigo que pode levar ao caminho de linha auxiliar do PT, como é o caso de Boulos, Erica Hilton, Talíria Petrone ou Ivan Valente. Por isso é preciso debater bem essa lacuna estratégica no manifesto da bancada radical.

12- Nós da CST acreditamos que não há saída para os trabalhadores por meio de governos de colaboração de classes e por isso rompemos com o PSOL e não lançamos candidates pela sua legenda. A política de alianças com partidos da burguesia impede enfrentar os bancos, o agronegócio, as mineradoras e o imperialismo e abre caminho para extrema direita como vimos agora no Peru e Colômbia. Somente a independência política da classe trabalhadora e a mobilização podem impor uma saída verdadeiramente anticapitalista. Com Lula e a Frente Ampla, o que vimos foi a continuidade da entrega das terras raras à exploração por grandes grupos econômicos, propostas de privatização de rios da Amazônia, corpo mole para expulsar mineradoras como a Belo Sun, o pagamento de volumes gigantescos da dívida pública aos rentistas e ao sistema financeiro, o não atendimento das reivindicações dos trabalhadores estatais e do funcionalismo público e o abandono de pautas históricas das mulheres, como a legalização do aborto, entre tantas outras demandas populares.

13- O que colocamos até aqui são pontos básicos para a construção uma esquerda radical. Aspectos importantes da estratégia marxista. São questões importantes para a batalha pela revolução brasileira e latino-americana. A centralidade deste debate reside no fato de que as lideranças da bancada radical, com o peso político que possuem, tem responsabilidade na construção de uma alternativa da classe trabalhadora e na reorganização da esquerda como alternativa ao PT e à frente ampla liderada por Lula e a patronal. Se o peso político da bancada radical fosse direcionado para construir uma alternativa de esquerda, baseada na independência de classe, poderia contribuir para superar o projeto de colaboração de classes e fortalecer uma alternativa capaz de enfrentar o avanço da extrema direita. Foi isso que o PT fez ao ser fundando enfrentando a colaboração de classe dos PCs no fim dos anos 1970. Foi isso que fizeram os radicais do PT e os setores que romperam com o primeiro governo Lula, entre eles nosso camarada Baba. Enfrentaram o primeiro governo Lula e nadaram contra a corrente dos céticos e fundaram o PSOL. No entanto, caso a bancada radical opte por atuar como uma ala crítica da frente ampla de Lula, acabara fortalecendo o projeto político do PT e de seus aliados burgueses, em vez de impulsionar a construção de uma alternativa independente da classe trabalhadora. A bancada radical tem essa encruzilhada no seu caminho. E ainda há tempo antes das convenções partidárias. Até aqui a bancada radical defende a frente ampla com os patrões de Lula. Isso significa respaldar, com críticas, o governo liderado por Lula e Alckmin, o que inclui lideranças como Tebet, partidos da direita e setores ultrarreacionários, como Múcio, Fávaro e o centrão. Um posicionamento que não é apropriado para uma esquerda radical.

A frente ampla não combate de fato a extrema direita

  1. Setores da esquerda socialista e comunista cedem ao lulismo argumentando que o perigo representado pela extrema direita justificaria esse alinhamento. A CST concorda com a necessidade de derrotar a extrema direita nas ruas. Defendemos a mais ampla unidade de ação contra Trump, Bolsonaro, Tarcísio, Zema, o machismo e o nazi-sionismo. No entanto, o fato é que o lulismo não constitui uma barreira efetiva contra a extrema direita. A composição da frente ampla com setores ultrarreacionários, como José Múcio; com representantes do agronegócio, como Carlos Fávaro; e os pactos de governabilidade com o Centrão e com governadores de direita e extrema direita, como Tarcísio de Freitas, significam colaborar com a cúpula militar golpista e viabilizar projetos privatistas e autoritários. Além disso, o governo Lula não revogou as contrarreformas trabalhista e da Previdência, não revogou o Novo Ensino Médio nem reverteu a privatização da Eletrobras realizada durante o governo Bolsonaro.
  2. A frente ampla também não enfrenta a política imperialista de Trump, buscando, a todo momento, negociar o inegociável com a extrema direita norte-americana. Da mesma forma, Lula não rompeu relações com o Estado de Israel, mesmo diante do genocídio em Gaza, uma medida que consideramos mínima do ponto de vista democrático e anti-imperialista.
  3. O governo Lula aplica políticas de austeridade, promove cortes em áreas sociais, aprofunda a catástrofe ambiental e não atende às reivindicações dos grevistas da FASUBRA. Nos sindicatos, tampouco impulsiona a unificação das lutas contra os governos estaduais dirigidos pela extrema direita.
  4. Essa política prepara novos retrocessos para a classe trabalhadora. A colaboração com nossos inimigos de classe abre caminho para o fortalecimento eleitoral do bolsonarismo e de projetos autoritários, como o representado pelo governo de São Paulo. Por isso, é fundamental construir uma esquerda politicamente independente.

Leia: Uma proposta para Jones, Sâmia e Glauber: por uma frente da esquerda radical, independente dos patrões (parte IV)

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