Saif Abukeshek entrevistado pela socialista argentina Mónica Schlotthauer

Por Prensa UIT-CI. (Transcrição da entrevista)

5/5/2026. Esta entrevista foi realizada 24 horas antes de a Flotilha ter sido ilegalmente interceptada por Israel. Mónica Schlotthauer é deputada da Izquierda Socialista (IS) e do FITU da Argentina, e integrante da Flotilha Global Sumud no navio Batolo. Mónica realizou a entrevista com o ativista catalão-palestino Saif Abukeshek no Batolo, antes de Saif mudar de embarcação.

Link para a entrevista: https://youtu.be/vsZkVSawJGI?si=o2DtWUgGoZLd6NNW

Mónica Schlotthauer é ferroviária na Argentina e integrante da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores-Quarta Internacional (UIT-CI). Ela também foi sequestrada pelo exército de Israel em águas internacionais perto de Creta, na Grécia, e depois libertada e transferida para Istambul, na Turquia.

Saif foi sequestrado e detido pelo Estado genocida de Israel, que o mantém preso ao lado do brasileiro Thiago Ávila. O mundo clama pela libertação imediata de ambos.

As declarações de Saif mostram seu caráter de lutador democrático e humanitário, coerente na defesa do povo palestino e de todos os povos do mundo.

 

Mónica: Saif, para que te conheçam na Argentina, para que te conheçam em outros países, gostaríamos de saber… um pouco sobre você, de onde você é, um pouco da sua história

Meu nome é Saif, nasci em um campo de refugiados no norte da Cisjordânia, chamado Áscar, que fica na cidade de Nablus. Minha família é de um vilarejo perto de Yaffa (1) de 1948, meu pai nasceu lá. Meu nome completo é um pouco longo: Saif Ashfem Camel Yavergsev Mahmud Abukeshek. Todos eles nasceram lá, menos eu, que nasci no campo de refugiados. Cresci durante a primeira intifada; meus pais são presos políticos e eu também passei por muitas coisas na Cisjordânia: fui detido várias vezes e levei vários tiros em manifestações. E bem, como acontece com todos os palestinos, cada família da Palestina sempre tem pelo menos um membro que já sofreu de alguma forma com a ocupação. Acho que tivemos bastante sorte em comparação com outras famílias que perderam entes queridos. Moro em Barcelona, tenho duas meninas e um menino e faço o que faço por eles em primeiro lugar e pelo futuro de todos nós.

 

Mónica: Bom, como você apresenta a Flotilha Global Sumud? Como ela surgiu? Qual é o objetivo?

Bem, sabemos que as flotilhas surgiram em 2008, quando o bloqueio a Gaza já havia começado, e, desde então, várias iniciativas vêm sendo organizadas. No ano passado, depois de muitos anos sem campanhas internacionais, houve três campanhas ao mesmo tempo. Teve o Madlyn, que foi o navio que abriu caminho para romper o bloqueio, teve o Convoy Sumud do norte da África. E teve a marcha global para Gaza, 4.000 pessoas de 80 países viajaram para o Cairo para marchar em direção a Rafah e tentar romper o bloqueio.

Então, ficamos avaliando esses três movimentos apenas para saber como as coisas estavam indo e organizando a comunicação de forma conjunta; e quando as três iniciativas sofreram repressão, decidimos: vamos nos unir, vamos conversar para nos coordenarmos em uma campanha única, e assim nasceu a Global Sumud Flotilla.

Pouco depois de começarmos a trabalhar juntos, também se juntaram a nós, do sudeste asiático, com a Santara, a Sumud Santara. E essas quatro coalizões vêm trabalhando juntas desde então. A Flotilha já foi organizada no ano passado e foi a maior Flotilha que tentou romper o bloqueio em meio ao genocídio. E agora voltamos novamente com uma Flotilha ainda maior, também dentro de um contexto político bastante complicado. Mas após um silêncio total nos últimos seis meses, algo que chamaram de “cessar-fogo” fictício, no qual Israel assassinou mais de 740 palestinos e violou os acordos de cessar-fogo mais de 2.073 vezes. E em que, há apenas dois dias, anunciaram que irão ampliar a linha amarela, que teoricamente era uma linha temporária até que as fases fossem alteradas. Mas a realidade no terreno não mudou, o genocídio não parou, Israel manteve e ampliou essas fronteiras. Ou seja, para colonizar mais terras. Na Cisjordânia, aprovaram mais leis para confiscar mais terras e expulsar mais palestinos. Aprovaram a pena de morte para prisioneiros palestinos, que se aplica apenas aos palestinos. Além das torturas, além de toda a violência física e sexual que estão cometendo contra os prisioneiros.

Então, nesses seis meses, em que, em teoria, se fala de processo de paz e de cessar-fogo, Israel só tem intensificado sua agressão, tem atacado cada vez mais os palestinos, bombardeando com total impunidade internacional e com a cumplicidade dos governos, da União Europeia, que há dois dias decidiu votar a ampliação do acordo de associação com Israel.

Chegamos com uma iniciativa em um contexto realmente muito complicado, mas necessário. É bem diferente do que era há seis meses, quando partimos de Barcelona em 31 de agosto. Uma situação muito, muito diferente, mas é necessária.

 

Mónica: Você poderia resumir quais são as principais diferenças?

Bem, primeiro o nível das mobilizações. Ou seja, estivemos em um momento no ano passado, em meio ao genocídio, em que havia muitas mobilizações em várias partes do mundo, e já faz seis meses com mobilizações muito escassas. A cobertura da mídia: no ano passado falava-se muito da Palestina, de Gaza, e já faz seis meses que não se fala de Gaza. A parte política: ou seja, havia pressão nas ruas, muitos governos já estavam envolvidos, fazendo declarações, tomando medidas, e há seis meses todo o processo político em relação à Palestina mudou. O nível de risco também aumentou, porque estamos falando de uma situação instável com a guerra no Irã e os ataques de guerra no Líbano.

Então, tudo isso é muito diferente em comparação com o ano passado, mas conseguimos mobilizar mais pessoas, conseguimos mobilizar mais navios. Conseguimos, já na primeira semana da Flotilha, voltar a falar sobre Gaza. Tivemos 244 milhões de interações nas redes sociais com as publicações que estamos divulgando. Portanto, como primeiro objetivo, estamos conseguindo dar visibilidade novamente à Palestina, dar visibilidade novamente a Gaza.

Também atuamos de maneira diferente no âmbito político. Ou seja, trabalhamos para causar um impacto político diferente do ano passado; organizamos um congresso em Bruxelas com a participação de mais de 300 políticos de várias partes do mundo para, em primeiro lugar, lançar a Declaração de Bruxelas, que aborda os direitos marítimos do povo palestino. Ela aborda a autodeterminação em meio a todas as violações de direitos, trata da condenação à morte dos presos e, a partir daí, cria uma base política para apoiar a Flotilha. E já começamos a receber declarações de diferentes parlamentares. Vinte e cinco parlamentares colombianos deram início a uma declaração de apoio à Flotilha. Também estamos sendo contatados por diferentes parlamentares que agora querem se unir na próxima fase para participar com os navios.

Portanto, um dos nossos objetivos, que é o impacto político, já estamos alcançando, e as mobilizações, pela primeira vez, uma Flotilha civil tenta desviar um navio de carga, um dos maiores em nível internacional que é cúmplice, que transporta material utilizado para fabricar artilharia. Em Israel, esse material é usado para bombardear os palestinos e manter o genocídio.

Na verdade, embora Israel cometa os crimes na Palestina, Israel está sendo apoiado e facilitado por governos europeus e internacionais para cometer esses crimes. Aqueles que lhes enviam armas, aqueles que lhes enviam material, aqueles que lhes dão cobertura política, midiática e financeira para cometer esses crimes. Eles não são apenas uma parte silenciosa, são cúmplices ativos no genocídio.

 

Mónica: Sobre a polêmica que Francesca Albanese (2) levantou neste encontro em Bruxelas, qual é a sua opinião?

Acho que, para nós, a verdade é que não nos interessa entrar em debates públicos sobre declarações de uma pessoa ou de outra. A Palestina precisa de todo tipo de mobilização e apelo de forma contínua para que se trabalhe em terra, no mar, nos portos, nas escolas, nas universidades e em outros espaços políticos. E é isso que temos feito; temos um grupo de trabalho de campanhas em terra que está coordenando com os estudantes e com os trabalhadores (…) Isso faz parte do trabalho político que temos feito por meio da declaração de Bruxelas e que visa a construção de uma futura rede política. Esse trabalho não termina com a Flotilha, mas continua após a Flotilha.

Estamos trabalhando na questão da visibilidade da comunicação para que possamos voltar a apoiar a Palestina. Meu apelo a todas as pessoas que estão convocando outras ações é que o façam; às pessoas que estão dizendo que precisamos bloquear os portos, eu concordo, precisamos bloquear os portos, que o façam. Mas, para organizar e mobilizar uma causa, não é preciso desacreditar outra; o que precisamos é de unidade. O que precisamos são vozes que convoquem as mobilizações, que convoquem a organização das pessoas. Houve seis meses de silêncio, houve seis meses sem mobilizações e não ouvimos vozes convocando essas mobilizações. No momento em que a Flotilha está no mar, é preciso apoiar.

 

Há um aspecto muito importante, que já comentei em uma comunicação anterior, que diz respeito ao simbolismo. Temos que ter muito cuidado com a forma como usamos esses termos, porque não apenas desacreditamos centenas de pessoas que estão participando de uma ação direta no mar, como é a Flotilha, mas também desacreditamos longas histórias de ação direta não violenta. A começar pelos palestinos: a greve de três anos ininterruptos de 1936, a primeira Intifada, a Marcha do Retorno dos palestinos em Gaza. Todas são mobilizações, a Marcha do Sal, liderada por Mahatma Gandhi (3), ou as greves de fome dos presos. Se a ação direta é um desafio à política, é um desafio aos governos que força as mudanças. Temos que ver como podemos criar unidade, como podemos criar um espaço diversificado de mobilizações e apoiar todas as iniciativas. E onde podemos colocar nossa energia, colocá-la ali.

 

Mónica: E quanto ao comboio terrestre?

Bem, ele está partindo, o comboio está nos últimos preparativos. Começará a partir nos próximos dias da Mauritânia e depois chegará à Líbia, onde participarão outras 400 pessoas internacionalmente; mais de 30 ou 40 países estão participando. Haverá mais de 40 caminhões de ajuda humanitária e esperamos que a chegada do comboio a Gaza possa coincidir com a nossa própria chegada a Gaza. Por mar e por terra, vamos romper o bloqueio.

 

Mónica:: O que você acha da possibilidade de haver paz no Oriente Médio para os palestinos, com o Estado de Israel atuando como gendarmerie?

Quando falamos de um processo de paz, no qual é preciso aplicar certas condições para criar espaço para um Estado palestino, e você age de forma sistemática para confiscar terras, deslocar mais palestinos, isolar as comunidades palestinas e construir estradas que não podem ser utilizadas pelos palestinos, isso não são sinais de paz. Além disso, quando se começa a aumentar o número de presos palestinos durante esses mesmos anos, ou seja, em vez de libertar presos palestinos, você vai encarcerando mais palestinos. Nós, em nenhum momento, vimos qualquer intenção de Israel de que haja um processo de paz.

Israel repete sempre a mesma história e muitas pessoas no mundo a repetem novamente sobre o Hamas… O Hamas foi criado no final dos anos 80. Antes da criação do Hamas, Israel já ocupava a Palestina há 40 anos. Estamos falando sobre o genocídio agora e muitas pessoas pensam que o genocídio começou em 7 de outubro. O genocídio já dura 80 anos e há muitos crimes que Israel cometeu, muitas limpezas étnicas, muitos ataques antes desses últimos três anos. Além disso, na própria Gaza, em 2008, houve ataques; em 2010, houve ataques; em 2014, houve ataques; em 2018, houve ataques; em 2020, houve ataques; em 2022, houve ataques com milhares e milhares de pessoas assassinadas.

Devemos entender que, quando há um governo que começa declarando que “não existe nada chamado Palestina, que os palestinos não existem”, quando um governo cujos próprios líderes dizem que “eles são animais e que vamos matá-los todos. Que as crianças são criminosas, que as crianças são terroristas, tanto as que estão dentro quanto fora da Palestina”. Para que possamos falar sobre qualquer resolução de paz, é preciso acabar com o movimento sionista; é um movimento racista, discriminatório, fascista, que não aceita a existência de outro povo. Um povo originário desta terra, que eles querem deslocar e eliminar de forma total. Então, na verdade, nos concentramos em que tipo de Estado vamos construir, se será um Estado ou dois Estados, e perdemos de vista os detalhes dos mecanismos que podem impedir qualquer processo de paz. Esses mecanismos começam com a aplicação do direito internacional, com a aplicação das resoluções internacionais e o fim do movimento sionista.

 

Mónica: Uma mensagem para todos que estão ouvindo

Estamos aqui partindo para Gaza com determinação, com a convicção de que os povos sempre vencem, os povos sempre triunfam. Nossa iniciativa, a Flotilha para romper o bloqueio, não pode ter sucesso sem ações em terra.

Fazemos um apelo para que as pessoas se levantem em todos os lugares. Hoje a questão não é a Palestina, a questão é a nossa humanidade. O que Israel faz lá e o que os Estados Unidos fazem, vimos que sequestraram o presidente da Venezuela, a ameaça sobre a Colômbia, vimos o bloqueio sobre Cuba. Vimos a guerra no Irã, vimos como iniciaram a divisão do Sudão, da Somália, os crimes que são cometidos no Congo e em muitos países do mundo.

Essa é a política, é o sistema que funciona perfeitamente para nos reprimir, para confiscar nossos direitos. Levantem-se por nossos direitos, levantem-se por nossa humanidade, por nossa libertação coletiva.

O que defendemos hoje pela Palestina é a defesa internacional de nossa humanidade. Não quero que ninguém acorde um dia de manhã, olhe no espelho e se pergunte o que fizemos para impedir o genocídio, ou que pergunte ao seu neto, uma criança: o que você fez para impedir o genocídio? Porque o genocídio está na Palestina hoje, mas é o genocídio da nossa humanidade; se não agirmos hoje, se não mudarmos esse ritmo sombrio que querem impor à nossa humanidade, não sei o que será do nosso futuro. É por isso que partimos, é por isso que queremos que as pessoas se levantem, que bloqueiem as fábricas de armas, que bloqueiem as estradas da cumplicidade, que acabem com os governos cúmplices que agem em seus nomes. E vamos nos proteger, porque eles agem por um interesse comum: tirar da maioria e dar aos poucos que querem se beneficiar de nossos direitos e nossos recursos. Quando dizemos “nunca mais”, é para todas, não é para alguém em particular. Nunca mais para todos os povos.

 

REFERÊNCIAS

1). Yaffa (Jaffa) era o centro econômico, cultural e urbano mais importante da Palestina árabe antes de 1948, famosa por sua indústria citrícola. Durante a Nakba de 1948, as forças sionistas expulsaram 95% de sua população, composta por mais de 80.000 palestinos.

2). Francesca Albanese. Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados. Embora tenha apoiado a Flotilha, na conferência de Bruxelas, na Bélgica, em 22/4/2026, ela se distanciou da ação de 2026, questionando suas ações, que qualificou de “simbolismo”, e as contrapôs a ações de bloqueio de portos. Sua declaração causou confusão e críticas no seio da Flotilha, quando esta já estava navegando com todos os riscos que isso acarretava.

3). A Marcha do Sal, liderada por Mahatma Gandhi de 12 de março a 6 de abril de 1930, foi uma campanha fundamental de desobediência civil pacífica contra o monopólio britânico do sal na Índia. Gandhi caminhou mais de 300 km de Sabarmati até Dandi para coletar sal ilegalmente, reunindo milhares de pessoas em um protesto que enfraqueceu o colonialismo e que finalmente culminou na independência da Índia em 1947.

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